Divulgado em abril de 2025, o relatório “Engaging Citizens in EU Missions – Insights from a Six-Country Experimental Survey” fornece uma visão aprofundada sobre a forma como os cidadãos de seis países europeus (Finlândia, França, Irlanda, Itália, Polónia e Roménia) entendem os desafios sociais centrais das Missões da União Europeia e quais os fatores que influenciam a sua participação cívica. O estudo, promovido pela Comissão Europeia, recolheu mais de 4.600 respostas e constitui uma base sólida para a definição de estratégias de envolvimento mais eficazes.
Os dados revelam que os cidadãos estão, em geral, muito preocupados com os temas abordados pelas Missões da UE, em particular o cancro, as alterações climáticas e a saúde dos oceanos e das águas. Curiosamente, apesar da preocupação aumentar com a idade, o conhecimento sobre os temas está distribuído de forma relativamente uniforme entre todas as faixas etárias.
Quase 70% dos participantes reconhecem a importância do envolvimento dos cidadãos nas Missões Europeias. No entanto, esse envolvimento não é automático. Embora a falta de tempo seja referida, os obstáculos mais significativos identificados foram estruturais, como a falta de confiança nas instituições e a perceção de que a participação não tem influência real nas decisões. Ou seja, o desejo de participar existe, mas esbarra frequentemente numa cultura institucional pouco aberta à participação efetiva.
Segundo o relatório, o maior incentivo para a participação é a possibilidade de contribuir para o bem comum. Os cidadãos valorizam sobretudo os benefícios coletivos das suas ações, em detrimento de ganhos pessoais. Além disso, projetos com impacto local despertam maior interesse do que iniciativas a nível europeu, sugerindo que o princípio da subsidiariedade — atuar o mais próximo possível dos cidadãos — continua a ser essencial para a mobilização.
Formatos e preferências: Ciência Cidadã destaca-se
O conceito de Ciência Cidadã refere-se à participação ativa de cidadãos em processos de investigação científica, colaborando com investigadores no desenvolvimento, recolha e análise de dados, interpretação de resultados ou formulação de soluções. Esta abordagem promove uma maior ligação entre Ciência e sociedade, democratiza o acesso ao conhecimento e valoriza os saberes e as experiências dos cidadãos.
Segundo instituições como a Comissão Europeia e a rede internacional ECSA (European Citizen Science Association), a Ciência Cidadã pode assumir formas muito diversas: desde a monitorização da qualidade do ar com sensores instalados em escolas ou casas, ao registo de espécies invasoras através de aplicações móveis, ou à colaboração em projetos sobre saúde pública, biodiversidade ou alterações climáticas.
No contexto do estudo analisado, este tipo de atividade revelou-se particularmente atrativa para os inquiridos, sobretudo quando associada a temas com impacto direto na vida das pessoas, como a qualidade do ar e a saúde do solo. A preferência pela Ciência Cidadã parece refletir um desejo crescente de contribuir para decisões baseadas em evidência e de participar em projetos com aplicação prática e relevância local.
A par disso, a aceitação de metodologias como a seleção aleatória de participantes ou formatos híbridos (presencial/online) sugere uma abertura crescente da sociedade a formas inovadoras e inclusivas de participação, mesmo quando envolvem componentes menos familiares ou mais estruturadas.
Uma das descobertas mais encorajadoras do estudo prende-se com a aceitação da experimentação enquanto ferramenta política. Cerca de 70% dos inquiridos aprovaram a ideia de testar políticas públicas à escala local antes da sua implementação mais ampla. Este dado tem implicações significativas para o futuro das Missões e na forma como as políticas europeias podem ser desenhadas com maior participação e avaliação contínua.
Recomendação: investir numa cidadania climática ativa
A partir dos dados recolhidos, o relatório deixa recomendações concretas aos decisores políticos e às instituições europeias. Em primeiro lugar, é essencial ampliar as oportunidades de participação e o financiamento associado a projetos de envolvimento cívico, sobretudo em territórios onde a ligação entre cidadãos e instituições é mais frágil.
Em segundo lugar, importa remover as barreiras institucionais ao envolvimento, promovendo a confiança, a transparência e a clareza sobre o impacto das contribuições dos cidadãos. O envolvimento deve ser visto como uma via real de influência, e não como um exercício simbólico.
A terceira recomendação passa por comunicar o valor local das Missões Europeias. Projetos demasiado abstratos ou distantes geograficamente têm menor capacidade de mobilização. Ao apresentar as iniciativas com uma linguagem concreta, associada ao território e ao quotidiano dos cidadãos, será possível alcançar públicos mais diversos.
A diversificação de métodos de participação — desde assembleias a aplicações digitais ou laboratórios vivos — também se revela essencial. Cada contexto exige ferramentas diferentes e a flexibilidade metodológica é um trunfo para alcançar resultados.
Por fim, o relatório sublinha a importância de envolver os mais jovens. Apesar de revelarem menor preocupação com os temas ambientais, este público mostra-se particularmente recetivo a participar, sobretudo se os formatos forem adaptados às suas expectativas.
Uma ferramenta estratégica para as Missões Europeias
O relatório de 2025 representa um passo decisivo no entendimento sobre o papel dos cidadãos na implementação das Missões da União Europeia. A par de análises detalhadas por país e grupo social, o documento inclui também recursos gráficos e cenários de teste que poderão ser utilizados como base para novas políticas e projetos.
O que são as Missões Europeias
As Missões da União Europeia são iniciativas emblemáticas do programa Horizonte Europa, concebidas para enfrentar alguns dos maiores desafios sociais e ambientais da atualidade através de metas ambiciosas e mensuráveis, a alcançar até 2030. Inspiradas nas “missões espaciais” do século XX, estas missões pretendem mobilizar políticas públicas, investigação, inovação e participação cidadã em torno de objetivos comuns. Atualmente, existem cinco Missões Europeias em curso: adaptação às alterações climáticas, neutralidade climática nas cidades, saúde dos oceanos e das águas, luta contra o cancro e saúde dos solos. Cada uma funciona como uma plataforma de ação integrada, onde a colaboração entre governos, ciência, empresas e cidadãos é essencial para gerar impacto real e duradouro.
A Cidades pelo Clima nasce precisamente no contexto da Missão Europeia para alcançar 100 cidades climaticamente neutras e inteligentes até 2030, reunindo 20 municípios e regiões portuguesas comprometidos com o objetivo de alcançarem essa meta antes de 2050.



