Empregos verdes: o que são, qual a sua importância e as ferramentas para os medir e avaliar na sua cidade  

À medida que as cidades intensificam os seus planos climáticos, torna-se mais premente compreender quantos empregos verdes estão a ser criados, em que setores, com que qualidade e para quem. A capacidade de medir esse impacto permite maximizar os benefícios económicos e sociais da ação climática, acompanhar a evolução dos planos locais e garantir que a transição seja justa. 

Um relatório recente da C40 Cities explora como as cidades podem medir os seus empregos verdes, com exemplos práticos de Buenos Aires, Londres, Milão, Rio de Janeiro e Sydney. 

O que é um “emprego verde”? 

Embora não exista uma definição única, há consenso de que empregos verdes são aqueles que contribuem para combater as alterações climáticas e proteger o ambiente, promovendo economias resilientes e comunidades mais inclusivas. 

Podem incluir: 

  • Novos postos de trabalho em setores de baixo carbono, como energias renováveis ou reciclagem; 
  • Transformação de empregos existentes (ex.: motoristas de transportes públicos); 
  • Ocupações que apoiam a adaptação climática e o bem-estar social (ex.: arquitetos paisagistas, profissionais de saúde e assistência social). 

Duas referências comuns: 

  • Organização Internacional do Trabalho (OIT): empregos dignos que contribuem para preservar ou restaurar o ambiente. 
  • Sistema das Nações Unidas de Contabilidade Económica Ambiental (SEEA): empregos que produzem bens e serviços ambientais ou conservam recursos naturais. 

Como medir: abordagens e ferramentas úteis 

Existem diferentes formas de definir e medir empregos verdes, e a escolha da abordagem mais adequada depende dos objetivos estratégicos, dados disponíveis, capacidade técnica e orçamento de cada cidade. 

▪️Abordagem por setor (sector-based) 

Esta abordagem utiliza classificações económicas padronizadas, como a ISIC – International Standard Industrial Classification das Nações Unidas, para identificar setores com atividades verdes ou potencial para se tornarem verdes. 

Exemplos: 

  • Reciclagem e gestão de resíduos: 100% verde 
  • Transportes públicos: parcialmente verde 
  • Setor de combustíveis fósseis: não verde 

Vantagens: fácil de aplicar com dados estatísticos convencionais, boa para análises de alto nível. 
Limitações: pode não captar nuances dentro de ocupações mistas. 

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▪️Abordagem por função (task-based) 

Foca-se em tarefas verdes realizadas dentro de uma ocupação, mesmo que o setor como um todo não seja considerado verde. Esta abordagem permite uma análise mais detalhada e ajustada ao mercado de trabalho real. 

Foi utilizada, por exemplo, pela cidade de Londres para identificar funções verdes emergentes com base no sistema O*NET, do Departamento do Trabalho dos EUA. 

Exemplo: 

  • Técnicos de manutenção elétrica que trabalham com energia solar 
  • Arquitetos especializados em edifícios de energia quase nula 

Vantagens: permite análises mais finas, úteis para planeamento de requalificação profissional. 
Limitações: requer bases de dados detalhadas e conhecimento técnico. 

Saiba mais: 

▪️ Avaliação da qualidade do emprego 

Medir apenas a quantidade de empregos verdes não é suficiente — é crucial avaliar a qualidade desses empregos, considerando fatores como: 

  • Salários justos 
  • Estabilidade e proteção social 
  • Igualdade de acesso (género, idade, origem) 
  • Oportunidades de progressão e capacitação 

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) disponibiliza indicadores de trabalho digno, que podem ser integrados nas metodologias de análise. 

Vantagens: promove uma transição mais justa e centrada nas pessoas. 
Limitações: pode exigir recolha de dados mais sensível e detalhada. 

Saiba mais: 

Fontes de dados úteis 

Para medir com rigor, o ideal é ter dados desagregados por cidade, setor, profissão e perfil demográfico (idade, género, rendimentos, escolaridade). Quando isso não é possível, os municípios podem adaptar dados nacionais, desde que sejam transparentes nas metodologias utilizadas

Fontes possíveis: 

  • Inquéritos ao emprego e mercado de trabalho 
  • Registos municipais ou censitários 

Exemplos práticos de cidades 

Rio de Janeiro 
Usou a metodologia da OIT e dados nacionais adaptados para estimar que 24% dos empregos na cidade eram verdes, com uma meta de atingir 40% até 2030. Incluiu também análise de género e qualificações. 

Londres 
Baseou-se em dados detalhados do Office for National Statistics (ONS) e definiu um plano de longo prazo para identificar ocupações verdes, necessidades de requalificação e setores em crescimento

Sydney 
Aplicou inteligência artificial a anúncios de emprego online para identificar perfis de competências verdes e barreiras ao acesso, um método inovador e replicável. 

Milão 
Estimou a criação de mais de 50 mil empregos verdes em 10 anos, a partir dos seus projetos de mitigação e adaptação climática. O estudo foi crucial para captar fundos de recuperação pós-COVID-19. 

Estimar o potencial de empregos verdes 

Além de medir o que já existe, as cidades podem estimar quantos empregos poderão ser criados com as ações climáticas planeadas, por exemplo, na reabilitação de edifícios, mobilidade sustentável ou produção local de energia. Isso permite reforçar o argumento económico e social para o investimento em transição verde. 

A metodologia da C40 Cities permite às cidades quantificar o número potencial de empregos que podem ser criados através da implementação de ações climáticas, como a renovação energética de edifícios, a expansão do transporte público sustentável ou a instalação de energias renováveis. 

A abordagem é baseada em três etapas principais: 

1. Definir ações com metas claras 

Antes de estimar empregos, é necessário que o município identifique as ações climáticas específicas que planeia implementar e que essas ações tenham metas quantitativas claras

Exemplos: 

  • Reabilitar 10.000 edifícios até 2030 
  • Expandir a rede de ciclovias em 50 km 
  • Instalar 200 MW de energia solar até 2028 

Estas metas são fundamentais para dimensionar o investimento necessário e o impacto esperado. 

2. Aplicar multiplicadores de emprego 

Para cada tipo de ação, aplicam-se multiplicadores de emprego, isto é, valores estimados que indicam quantos empregos são gerados por cada milhão de euros investido num determinado setor. 

Exemplo prático: 

  • Se a renovação de edifícios tem um multiplicador de 12 empregos por milhão de euros investido, um investimento de 50 milhões poderá gerar 600 empregos (12 x 50 = 600). 

Estes multiplicadores podem ser: 

  • Obtidos de estudos nacionais ou internacionais 
  • Calculados com apoio técnico (universidades, consultoras) 
  • Ajustados à realidade local (salários, produtividade, cadeia de valor) 

3. Avaliar impactos em grupos vulneráveis 

A metodologia também recomenda analisar quem beneficia com esses empregos. Isso inclui verificar: 

  • Distribuição por género (há mais homens do que mulheres?) 
  • Faixa etária (estão a ser criados empregos para jovens?) 
  • Nível de qualificação exigido (há barreiras de acesso?) 
  • Potencial de inclusão de comunidades vulneráveis ou em risco de exclusão 

Este passo é essencial para que a transição verde não aumente desigualdades, e sim promova inclusão socioeconómica

Conclusão: medir para transformar 

Medir empregos verdes ajuda as cidades a: 

  • Quantificar os benefícios da ação climática 
  • Guiar políticas de emprego, educação e inclusão 
  • Apoiar candidaturas a financiamento europeu 
  • Desenvolver um plano local de transição justa 

Com dados e métodos bem definidos, as cidades podem integrar o trabalho digno na transição climática, promovendo economias mais justas e resilientes. 

Fontes: