
Uma década depois da assinatura do Acordo de Paris, o mundo vive uma transformação profunda, contudo ainda insuficiente para manter viva a meta dos 1,5 °C.
Em 2015, mais de 190 países comprometeram-se a limitar o aquecimento global bem abaixo dos 2 °C e a envidar esforços para não ultrapassar os 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Esse marco histórico — o Acordo de Paris — inaugurou uma nova era da ação climática global, baseada na cooperação, na transparência e em metas nacionais progressivamente mais ambiciosas.
Dez anos depois, há sinais claros de mudança: as energias renováveis e a mobilidade elétrica ganharam escala, as finanças verdes cresceram e novas tecnologias — antes apenas conceitos — começam a sair dos laboratórios.
Mas o State of Climate Action 2025 do World Resources Institute (WRI), o mais recente relatório global sobre o progresso climático, deixa um alerta inequívoco: a transição não está a ocorrer com a rapidez nem com a profundidade necessárias.
Uma década de transformação sem precedentes
O progresso tecnológico e económico alcançado desde 2015 seria impensável há apenas dez anos.
- A quota das energias solar e eólica na geração elétrica global triplicou.
- Os veículos elétricos já representam mais de 20% das vendas de automóveis ligeiros.
- O investimento em energia limpa superou, pelo segundo ano consecutivo, o investimento em combustíveis fósseis.
- Tecnologias emergentes como o hidrogénio verde e a captura direta de carbono estão a entrar em fase de implementação real.
Estas mudanças mostram que a transição é possível. No entanto, a velocidade atual ainda é insuficiente: nenhum dos 45 indicadores analisados pelo relatório está plenamente alinhado com as metas climáticas de 2030.
O mundo ultrapassou os 1,5 °C, mas ainda há margem para agir
O ano de 2024 foi o primeiro em que a temperatura média global superou, durante 12 meses consecutivos, o limiar dos 1,5 °C. Embora alarmante, este facto não significa que a meta do Acordo de Paris tenha sido perdida. O objetivo de limitar o aquecimento global mantém-se possível, desde que os países acelerem drasticamente a redução de emissões e o reforço das remoções de carbono.
Finanças climáticas: mais investimento privado, mas ainda longe do necessário
O investimento climático privado atingiu um recorde de 1,3 biliões de dólares em 2023, impulsionado sobretudo pela China e pela Europa Ocidental. Apesar do crescimento, o montante continua longe dos 3,1 biliões anuais necessários até 2030.
O financiamento público, que é essencial para áreas menos atrativas ao investimento privado, como a restauração florestal, a agricultura resiliente e a mobilidade pública, permanece insuficiente.
Paralelamente, os subsídios aos combustíveis fósseis continuam elevados, contrariando compromissos internacionais assumidos.
Renováveis e eletrificação: progresso real, mas ainda lento
A energia solar é hoje a fonte de eletricidade que mais cresce no mundo, superando todas as previsões iniciais. Contudo, para cumprir a meta dos 1,5 °C, o ritmo de expansão das renováveis precisa de duplicar até 2030.
O carvão, por exemplo, reduziu a sua participação na geração elétrica global de 37% em 2019 para 34% em 2024, quando deveria cair para 4% até 2030.
Sem essa redução, a descarbonização de setores dependentes da eletrificação — como transportes, edifícios e indústria — torna-se inviável.
Natureza e florestas: o elo fraco da ação climática
Os ecossistemas naturais continuam sob enorme pressão. A perda de floresta tropical voltou a aumentar em 2024, atingindo 8,1 milhões de hectares por ano, o equivalente a 22 campos de futebol por minuto. Este retrocesso compromete tanto a mitigação quanto a adaptação climática, já que as florestas armazenam carbono, regulam o clima e sustentam milhões de comunidades.
A recuperação das turfeiras — que cobrem menos de 4% da superfície terrestre, mas armazenam cerca de um quinto do carbono do solo global — também avança lentamente e com monitorização insuficiente.
Indústria, Agricultura e Consumo: desafios complexos, soluções dispersas
A descarbonização da indústria avança de forma desigual. O aço continua responsável por cerca de 7% das emissões globais de CO₂, e a sua intensidade carbónica até aumentou desde 2018. Já no cimento, há sinais positivos: as emissões por tonelada produzida começaram a cair, graças à eficiência energética e ao uso de materiais alternativos.
Na agricultura, surgem soluções promissoras — como métodos de cultivo de arroz com menor emissão de metano ou dietas para gado que reduzem a fermentação entérica, porém a adoção global ainda é limitada.
Do lado do consumo, as mudanças de comportamento, de dietas mais sustentáveis à mobilidade ativa, continuam muito aquém do necessário, embora possam reduzir as emissões globais em até 70% até 2050.
Um retrato global da Ação Climática
Segundo o State of Climate Action 2025:
- 6 indicadores estão relativamente próximos de cumprir as metas de 2030;
- 29 estão no caminho certo, mas a um ritmo demasiado lento;
- 5 seguem na direção errada;
- 5 carecem de dados suficientes para avaliação.
Este panorama evidencia o fosso entre ambição e execução, reforçando a urgência de políticas coerentes, financiamento massivo e cooperação internacional efetiva.



