Relatório do Fórum Económico Mundial reforça que sector tecnológico pode liderar transição climática

O setor tecnológico tornou-se uma infraestrutura crítica das economias urbanas e da vida quotidiana. Da inteligência artificial aos serviços em nuvem, passando pelos semicondutores e equipamentos eletrónicos, a expansão digital está intimamente ligada ao crescimento das cidades. No entanto, essa expansão tem um impacto crescente sobre recursos naturais essenciais, como água, energia, solo e minerais críticos. 

relatório do Fórum Económico Mundial alerta que mais de metade do PIB mundial depende moderada ou fortemente da natureza, num contexto em que a humanidade já consome o equivalente a 1,8 planetas Terra. Ainda assim, apenas 12% das grandes empresas globais têm metas para biodiversidade, contrastando com a ampla adoção de metas climáticas. 

Para as cidades, onde se concentram data centers, infraestruturas digitais e consumo tecnológico, esta interligação entre tecnologia, clima e natureza é particularmente relevante. 

Principais dados e impactos do setor tecnológico 

O relatório identifica três grandes sub-setores críticos: semicondutores, data centers e hardware/lixo eletrónico, todos com impactos diretos sobre territórios urbanos e regionais. 

Consumo de água e energia 

  • A indústria tecnológica consome cerca de 1,5 mil milhões de litros de água por ano, mais do que o consumo anual de países como a Dinamarca. 
  • A produção de semicondutores utiliza mais de 1 bilião de litros de água doce por ano, com fábricas individuais a consumir até 38 milhões de litros por dia
  • Existem mais de 11.000 data centers em operação no mundo, com crescimento anual da procura energética entre 19% e 22% até 2030
  • Os data centers já consomem mais de 60 GW de eletricidade, podendo igualar, em 2026, o consumo energético total de países como o Japão. 

Pressão territorial e conflitos locais 

Um único data center de grande escala pode requerer: 

  • Até 1 GW de potência elétrica 
  • 500 a 800 acres de solo 
  • Mais de 7 milhões de litros de água por dia 

Só nos EUA, 64 mil milhões de dólares em projetos de data centers foram bloqueados ou adiados entre 2023 e 2025 devido à oposição de comunidades locais, sobretudo por preocupações com água, energia e uso do solo. 

Este dado é particularmente relevante para cidades que procuram atrair investimento tecnológico, mas enfrentam limites ecológicos e sociais. 

 Resíduos eletrónicos (e-waste) 

  • Em 2022 foram gerados mais de 62 mil milhões de kg de lixo eletrónico, número que pode chegar a 82 mil milhões de kg em 2030
  • Apenas 22% do lixo eletrónico é reciclado formalmente
  • O lixo eletrónico é responsável por cerca de 580 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano, além de poluição do solo e da água por metais pesados. 

Porque isto importa para as cidades 

O relatório sublinha que os impactos do setor tecnológico afetam diretamente a licença social para operar, a resiliência urbana e a capacidade das cidades de cumprir metas climáticas e de biodiversidade: 

  • Cinco dos dez maiores riscos globais da próxima década são ambientais, incluindo escassez de recursos naturais e colapso dos ecossistemas. 
  • Cidades com stress hídrico ou redes elétricas limitadas tornam-se menos aptas a acolher nova infraestrutura digital. 
  • Comunidades locais exigem cada vez mais transparência, planeamento territorial responsável e benefícios ambientais concretos

Ao mesmo tempo, a transição positiva para a natureza (nature positive) pode gerar benefícios económicos: o Fórum estima que ações alinhadas com a natureza possam desbloquear até 690 mil milhões de euros em poupanças e novas receitas no setor tecnológico até 2030

Sete ações prioritárias para uma tecnologia “nature positive” 

O relatório propõe sete áreas de ação, relevantes tanto para empresas como para decisores públicos e autoridades locais: 

  1. Uso eficiente e regenerativo da água 
    Planeamento territorial com base em stress hídrico, reutilização de água e recuperação de bacias hidrográficas. 
  1. Circularidade e redução da poluição 
    Design para durabilidade, reparação e reciclagem, com especial foco nos resíduos eletrónicos urbanos. 
  1. Redução de emissões não energéticas 
    Inclui gases industriais e emissões incorporadas nos materiais de construção. 
  1. Gestão e restauração do solo 
    Priorizar brownfields (terrenos ou áreas urbanas anteriormente usadas que se encontram abandonadas, subutilizadas ou degradadas), integrar infraestrutura verde e proteger habitats locais. 
  1. Energia limpa e eficiência operacional 
    Renováveis, eficiência energética e gestão inteligente da procura. 
  1. Cadeias de abastecimento responsáveis 
    Critérios ambientais para fornecedores, incluindo mineração e materiais críticos. 
  1. Envolvimento com políticas públicas e comunidades 
    Transparência, reporte ambiental e colaboração com cidades e reguladores. 

Conclusão: tecnologia como aliada da transição urbana 

O relatório é claro: o setor tecnológico pode ser um motor da transição ecológica ou um fator de bloqueio. Para as cidades, o desafio passa por integrar inovação digital com planeamento urbano, justiça ambiental e proteção da natureza. 

A transição para uma economia nature positive não é apenas uma agenda ambiental, mas uma condição para garantir resiliência urbana, competitividade económica e qualidade de vida. As cidades que alinharem tecnologia, clima e natureza estarão melhor preparadas para o futuro. 

Leia o relatório na íntegra aqui