Portugueses entre os mais preocupados com as alterações climáticas 

Os portugueses estão entre os cidadãos europeus que mais sentem os impactos das alterações climáticas e que mais reconhecem a sua gravidade. Ainda assim, quando confrontados com outras urgências sociais e económicas, o clima nem sempre surge como prioridade imediata. Esta tensão entre preocupação e ação atravessa os resultados mais recentes do Eurobarómetro do Parlamento Europeu (Outono de 2025). 

Segundo o European Investment Bank Climate Survey, 90% dos portugueses consideram as alterações climáticas um problema grave e 91% dizem estar preocupados com catástrofes naturais agravadas pelo aquecimento global. Estes valores colocam Portugal acima da média europeia. Mas o retrato torna-se mais complexo quando se olha para as prioridades políticas expressas no Eurobarómetro. 

Segurança, custo de vida e saúde à frente do clima 

No inquérito do Parlamento Europeu, realizado com mais de mil portugueses, os temas que os cidadãos gostariam de ver tratados em prioridade pela União Europeia são, sobretudo, o custo de vida, a segurança, a saúde e o emprego. As alterações climáticas, apesar de reconhecidas como um risco estrutural, aparecem mais abaixo na hierarquia das preocupações imediatas. 

Este padrão revela uma sociedade que sente os efeitos da crise climática, mas que vive também sob pressão económica e social, especialmente num contexto de inflação elevada, incerteza geopolítica e degradação do poder de compra. 

Crises globais e o papel da União Europeia 

O mesmo inquérito mostra que a maioria dos portugueses acredita que a União Europeia deve assumir um papel mais forte na proteção dos cidadãos face a crises globais. Questões como segurança energética, cadeias de abastecimento e estabilidade económica são vistas como áreas onde a UE deve reforçar a sua intervenção. 

Neste contexto, o clima surge muitas vezes de forma indireta: associado à escassez de recursos, ao aumento dos preços da energia e dos alimentos, e à instabilidade internacional. Ou seja, mesmo quando não aparece como prioridade explícita, o impacto das alterações climáticas está presente nas preocupações centrais. 

Os dados complementares do estudo do Banco Europeu de Investimento ajudam a explicar esta sensibilidade. 86% dos portugueses dizem ter vivido pelo menos um fenómeno climático extremo nos últimos cinco anos, como incêndios, secas ou ondas de calor. Esta experiência direta, sem dúvida ampliada nas últimas semanas devido à tempestade Kristin (mas posteriores ao estudo) reforça a perceção de risco, tornando as alterações climáticas uma realidade próxima, e não um problema distante. 

Ao mesmo tempo, 95% concordam que investir agora em adaptação evita custos muito maiores no futuro, o que demonstra uma forte noção de prevenção e responsabilidade intergeracional. 

Confiança na Europa como parte da solução 

O Eurobarómetro do Parlamento Europeu revela ainda que Portugal continua a ser um dos países com maior confiança nas instituições europeias e com uma imagem mais positiva da UE. Esta confiança é um fator-chave para que políticas climáticas ambiciosas encontrem aceitação pública, sobretudo quando associadas à criação de emprego, proteção social e crescimento económico. 

O retrato que emerge é o de um país que reconhece a gravidade da crise climática, mas que vive num equilíbrio delicado entre o longo prazo e as urgências do presente. Os portugueses querem proteção, estabilidade e oportunidades e veem na União Europeia um ator central para responder a estes desafios. 

A grande questão, nos próximos anos, será saber se as políticas climáticas conseguirão ser apresentadas não apenas como uma resposta ambiental, mas como parte integrante das soluções para os problemas económicos e sociais que mais inquietam os cidadãos. 

Este Eurobarómetro do Parlamento Europeu foi elaborado entre 6 e 30 de novembro de 2025, abrangendo os 27 países da UE. Foram realizadas 26.453 entrevistas presenciais e os resultados foram ajustados conforme o tamanho da população de cada país.