
Os transportes continuam a ser o principal motor do consumo de energia na União Europeia, num sistema ainda marcado pela forte dependência de combustíveis fósseis e por perdas significativas ao longo da cadeia energética.
Os dados constam da secção dedicada ao consumo energético do relatório Energy in Europe – 2026 edition, divulgado pelo Eurostat, que analisa os padrões de utilização de energia, desde a produção até ao consumo final.
Segundo o documento, 31% do consumo final de energia na UE em 2024 foi absorvido pelo setor dos transportes, com o transporte rodoviário — sobretudo automóveis e veículos ligeiros — a representar quase a totalidade desse valor.
No total, apenas cerca de 66% da energia disponível chega ao consumo final, sendo o restante perdido em processos de transformação, distribuição ou utilizado em atividades associadas à própria produção energética e a usos não energéticos, como materiais derivados do petróleo. Este dado evidencia uma das fragilidades persistentes do sistema energético europeu: a sua ineficiência estrutural.
Consumo de combustíveis fósseis ainda em alta
Apesar do crescimento das fontes renováveis, o consumo energético na Europa continua dominado pelos combustíveis fósseis. Em 2024, os produtos petrolíferos representaram 37% do consumo final, mantendo-se como a principal fonte de energia. A eletricidade surge em segundo lugar, com 23%, seguida pelo gás natural (20%). As energias renováveis, quando utilizadas diretamente, como biomassa, solar térmico ou geotermia, representam 12%, embora o seu peso real seja superior quando se inclui a eletricidade de origem renovável, elevando o total para cerca de 25%.
A análise revela ainda profundas assimetrias entre Estados-Membros. Em países como Chipre, Grécia ou Irlanda, os produtos petrolíferos continuam a representar mais de metade do consumo energético. Já em Malta, a eletricidade atinge uma fatia de 41%, enquanto nos Países Baixos o gás natural assume particular relevância, com 33%. Em contraste, a Letónia e a Finlândia destacam-se pelo maior peso das renováveis no consumo final, e a Dinamarca pela forte utilização de redes de aquecimento urbano.
O consumo distribui-se também de forma desigual entre setores. A seguir aos transportes, as famílias representam 27% do consumo final de energia, sobretudo devido às necessidades de aquecimento, que correspondem a cerca de dois terços desse total. A indústria absorve 25%, com destaque para os setores químico e petroquímico, enquanto os serviços representam 13% e a agricultura, floresta e pescas cerca de 3%. No domínio da produção elétrica, os dados apontam para uma transição mais avançada. Em 2024, 48% da eletricidade gerada na União Europeia teve origem em fontes renováveis, superando os combustíveis fósseis (28%) e a energia nuclear (23%). Entre as renováveis, a energia eólica lidera, seguida pela hídrica e solar. Ainda assim, o peso das diferentes fontes varia significativamente entre países, refletindo características geográficas, opções políticas e estruturas de mercado distintas.
Os preços da energia continuam igualmente a revelar disparidades expressivas dentro da União. No primeiro semestre de 2025, a eletricidade para consumidores domésticos atingiu valores mais elevados na Alemanha, Bélgica e Dinamarca, enquanto países como Hungria, Malta e Bulgária registaram os preços mais baixos. No caso do gás natural, os custos foram mais elevados na Suécia e nos Países Baixos, contrastando com valores significativamente inferiores na Europa de Leste.
O caso português
Em Portugal, o padrão de consumo energético apresenta algumas semelhanças com a média europeia, mas também diferenças relevantes. Tal como no conjunto da União Europeia, os transportes são o principal setor consumidor de energia, representando cerca de 38% do consumo final, seguidos pelos edifícios, com cerca de 32%.
Apesar do avanço das renováveis na produção elétrica, o petróleo continua a ser a principal fonte de energia em Portugal, com cerca de 42% do consumo em 2024, refletindo a forte dependência do transporte rodoviário.
Ao mesmo tempo, o país destaca-se no contexto europeu pela elevada incorporação de energias renováveis no sistema elétrico. Em 2024, as renováveis chegaram a representar cerca de 71% da produção de eletricidade, com contributos significativos da hídrica, eólica e solar. Em alguns períodos, esse valor foi ainda mais elevado, ultrapassando 80% ou mesmo 90% do consumo elétrico mensal.
Outro indicador relevante é o consumo per capita, que em Portugal se mantém cerca de 35% abaixo da média da União Europeia, evidenciando um perfil energético menos intensivo, mas também refletindo fatores estruturais da economia.
Consulte o relatório completo: Energy in Europe – 2026 edition



