Estudo mostra que a construção sustentável ganha terreno, mas implementação fica aquém das intenções 

A construção sustentável está cada vez mais presente no discurso global, mas a sua adoção prática continua a avançar a diferentes velocidades. Esta é uma das principais conclusões do Sustainable Construction Barometer 2026, estudo internacional promovido pela Saint-Gobain, que analisa perceções, obstáculos e tendências no setor da construção em 30 países. 

Um conceito consolidado, mas ainda desigual 

De acordo com o barómetro, a construção sustentável deixou de ser um nicho para se tornar um conceito amplamente reconhecido. Cerca de dois terços dos profissionais do setor (67%) afirmam compreender o seu significado, enquanto entre os cidadãos esse valor desce para menos de metade (39%). 

Apesar desta visibilidade crescente, persistem diferenças significativas entre regiões. Na Europa, por exemplo, o nível de conhecimento varia bastante entre países, refletindo diferentes graus de maturidade do setor. Por exemplo, na Roménia o grau de desconhecimento sobre o setor é de 86%, enquanto na Chéquia é de 40%. Também entre a população, o entendimento do conceito está longe de ser homogéneo, sendo mais elevado entre jovens e pessoas com maior nível de escolaridade. 

Resiliência e valor económico ganham protagonismo 

Entre os critérios associados à construção sustentável, a resiliência — a capacidade dos edifícios resistirem a eventos extremos e alterações climáticas — continua a ganhar relevância. Este fator tem sido particularmente valorizado em regiões mais expostas a fenómenos climáticos severos, como África e Médio Oriente. 

Ainda assim, o relatório sublinha que o grande desafio atual passa por demonstrar o valor económico destas soluções. Menos de metade dos profissionais (47%) acredita que a construção sustentável gera mais valor do que os modelos tradicionais, e entre decisores políticos essa perceção é ainda mais reduzida (34%). O custo e a falta de garantias de desempenho continuam a ser apontados como entraves à adoção em larga escala. 

Intenção não acompanha ação 

Embora exista um consenso alargado sobre a necessidade de acelerar a transição (87%), com a maioria dos profissionais a defender mais ambição, a implementação prática continua aquém das expectativas. Apenas uma minoria das empresas avalia regularmente a pegada de carbono dos seus projetos (32%), e menos de um terço afirma já desenvolver projetos sustentáveis de forma consistente (30%). 

O desfasamento entre intenção e ação é visível também noutros grupos. 78% dos estudantes valorizam a formação em construção sustentável, mas apenas 5% recusariam categoricamente uma oferta de emprego de uma empresa que não esteja comprometida com a sustentabilidade. 24% das associações já boicotaram projetos não sustentáveis, enquanto 50% poderão fazê-lo no futuro. Já ao nível político, o peso da sustentabilidade nos contratos públicos diminuiu face ao ano anterior (86% quando comparado com 98% em 2025), sinalizando possíveis recuos na prioridade atribuída ao tema. 

Cidadãos podem ser fator de aceleração 

O barómetro destaca ainda o papel crescente dos cidadãos como agentes de mudança. A maioria (63%) considera prioritário o desenvolvimento de edifícios mais sustentáveis, com uma atenção crescente aos impactos na saúde e bem-estar dos ocupantes. 

Este envolvimento público pode tornar-se um fator decisivo para acelerar a transição, sobretudo se for acompanhado por maior sensibilização e acesso à informação. Para muitos dos inquiridos, aumentar a literacia sobre construção sustentável é tão importante quanto desenvolver novas soluções tecnológicas. 

Competitividade e cooperação no centro da transição 

Entre os principais motores identificados para acelerar o setor estão a necessidade de tornar as soluções sustentáveis mais competitivas e o reforço da sensibilização junto de cidadãos e profissionais. O estudo sugere que o desafio já não passa tanto pela criação de novas tecnologias, mas por garantir condições para implementar as que já existem. 

A transição deverá também assentar numa lógica de colaboração entre os atores da cadeia de valor, desde arquitetos e engenheiros a financiadores, construtores e utilizadores finais, em vez de depender de um único líder. 

Um retrato global com desafios comuns 

Baseado em inquéritos a milhares de profissionais, estudantes, decisores e cidadãos, o barómetro oferece uma visão abrangente sobre o estado da construção sustentável no mundo. A conclusão é que o tema está consolidado na agenda global, porém a sua concretização no terreno exige mais provas de valor, maior coordenação e uma mobilização mais eficaz de todos os intervenientes. 

Inegável é que, num setor responsável por uma parte significativa das emissões globais, a capacidade de transformar intenção em ação será determinante para cumprir os objetivos climáticos nas próximas décadas.