
Há uma pergunta que a ciência tem vindo a responder com crescente clareza: o que acontece ao ambiente quando as mulheres têm mais poder de decisão nas empresas? A resposta, segundo um estudo recente, é encorajadora e tem muito a dizer sobre o futuro do planeta.
O que diz a investigação?
O estudo “The Impact of Women’s Empowerment and Access to Finance on Greenhouse Gas Emissions: A Framework for Securing Environmental Tranquility”, é da autoria de uma equipa multidisciplinar composta por Juan Li, Jianying Li, Abdelmohsen A. Nassani, Imran Naseem e Khalid Zaman. Os investigadores analisaram dados de 74 países para perceber de que forma a autonomia das mulheres no mundo empresarial e o seu acesso a financiamento influenciam as emissões de gases com efeito de estufa. Trata-se de uma das primeiras investigações a examinar esta relação não de forma global, mas em diferentes níveis de empoderamento feminino, o que permite identificar em que ponto a influência das mulheres é mais decisiva para a sustentabilidade ambiental das empresas.
Os resultados são claros: quanto maior a autonomia das mulheres no mundo empresarial, menores tendem a ser as emissões poluentes das empresas.
Não se trata de coincidência. Vários estudos anteriores já tinham mostrado que as mulheres em cargos de gestão tendem a promover práticas mais sustentáveis, a investir em tecnologias mais limpas e a valorizar a responsabilidade ambiental nas decisões do dia a dia.
O que torna as mulheres diferentes neste papel?
Os investigadores apontam várias razões. As mulheres tendem a ter uma relação mais próxima com o impacto ambiental, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade, onde são frequentemente as primeiras a sentir os efeitos das alterações climáticas. Isso traduz-se numa maior sensibilidade para questões de sustentabilidade quando chegam a posições de liderança.
Para além disso, a diversidade de perspetivas nas equipas de gestão, e a inclusão de vozes femininas em particular, torna as empresas mais capazes de identificar riscos ambientais e de encontrar soluções criativas e eficazes.
O dinheiro também faz diferença
O estudo não se ficou pela liderança. Analisou também o que acontece quando as mulheres têm acesso a financiamento (crédito, investimento, recursos financeiros). E a conclusão é semelhante: quando as mulheres controlam mais recursos, as empresas tendem a tornar-se mais ecológicas.
Há, no entanto, um paradoxo: quando o crédito é distribuído de forma indiscriminada — sem critérios de sustentabilidade — pode ter o efeito contrário, ao permitir que novas empresas entrem no mercado sem respeitar normas ambientais. A questão não é só quanto dinheiro circula, mas para onde vai e quem decide.
Onde estamos hoje?
Apesar dos progressos, as desigualdades persistem. Em muitos países, as mulheres continuam a enfrentar barreiras significativas no acesso a cargos de liderança e ao financiamento empresarial. Políticas que ainda favorecem os homens no mercado de trabalho e no acesso ao capital limitam não só as carreiras das mulheres limitam também a capacidade das empresas de se tornarem mais sustentáveis.
Países onde as mulheres conquistaram maior autonomia registam, em geral, emissões corporativas mais baixas. Não é uma fórmula mágica, mas é um sinal relevante.
O que precisamos de mudar?
Os investigadores deixam recomendações concretas:
- Abrir as portas da liderança. Incentivar ativamente a presença de mulheres em cargos de gestão e nos conselhos de administração das empresas.
- Garantir acesso igual ao financiamento. Eliminar as barreiras que ainda hoje dificultam o acesso das mulheres ao crédito e ao investimento empresarial.
- Redirecionar o financiamento público para apoiar iniciativas de empreendedorismo feminino ligadas à sustentabilidade.
- Incluir a perspetiva de género nas políticas ambientais. As políticas climáticas serão mais eficazes se forem desenhadas com — e não apenas para — as mulheres.
Neste 8 de Março, a ciência oferece-nos um argumento poderoso: empoderar mulheres não é apenas uma questão de justiça é também uma estratégia inteligente para o futuro do planeta.
As alterações climáticas são um dos maiores desafios da nossa geração. Enfrentá-las exige as melhores ideias, as melhores lideranças e as melhores decisões possíveis. E a evidência mostra que, quando as mulheres têm lugar à mesa, essas decisões tendem a ser melhores para as empresas, as pessoas e o mundo que partilhamos.



