IEA e Global CCS Institute: guia para usar as principais fontes sobre captura de carbono 

À medida que a captura e armazenamento de carbono ganha peso nas estratégias climáticas globais, cresce também a necessidade de dados fiáveis para avaliar o seu progresso real. Duas organizações de referência disponibilizam ferramentas distintas para este efeito: a IEA CCUS Projects Database, da Agência Internacional de Energia, e o Global Status of CCS, publicado anualmente pelo Global CCS Institute. Embora ambas monitorizem o mesmo setor, fazem-no com perspetivas, âmbitos e propósitos diferentes. 

O que é a captura e armazenamento de carbono? 

A tecnologia CCUS (sigla inglesa para captura, utilização e armazenamento de dióxido de carbono) permite retirar CO₂ de fontes industriais ou diretamente da atmosfera, transportá-lo e armazená-lo de forma permanente em formações geológicas, ou reutilizá-lo em novos produtos. É considerada indispensável para descarbonizar setores de difícil conversão, como o cimento, o aço ou a produção de energia a partir de combustíveis fósseis. 

Apesar do potencial reconhecido, a tecnologia enfrenta desafios de escala, custo e aceitação pública. Daí a importância de ferramentas que permitam distinguir intenções declaradas de projetos com progresso real. 

As duas ferramentas em detalhe 

International Energy Agency – CCUS Projects Database 

Lançada pela IEA como parte do seu trabalho de monitorização tecnológica, esta base de dados cobre todos os projetos de grande escala de captura, transporte, utilização e armazenamento de CO₂ a nível mundial desde os anos 70 até à atualidade. A mais recente atualização é de março de 2026. 

O foco está nos projetos com capacidade superior a 100 000 toneladas de CO₂ por ano (ou 1 000 toneladas no caso de captura direta do ar), excluindo aplicações com impacto climático reduzido. O resultado é um conjunto de dados técnico, comparável e descarregável em formato aberto. 

É uma ferramenta orientada para a análise: quem a usa tem acesso a dados estruturados sobre fases de desenvolvimento, capacidade instalada, distribuição geográfica e setores abrangidos. O tom é neutro e a metodologia é transparente. 

Global CCS Institute – Global Status of CCS 

Publicado anualmente desde há mais de uma década, o Global Status of CCS é o relatório de referência do Global CCS Institute, uma organização internacional cuja missão é acelerar a implementação do CCS como resposta à crise climática. A edição de 2025, intitulada Staying the Course, acompanha desenvolvimentos em política, investimento, infraestrutura e mercados de carbono. 

O relatório é mais abrangente do que um simples repositório de dados: inclui análise de contexto político por região, tendências de financiamento, acordos internacionais e desenvolvimento de hubs de CO₂. É publicado em formato de relatório narrativo, com sumário executivo disponível gratuitamente. 

Em que diferem concretamente? 

 IEA — CCUS Projects Database Global CCS Institute — Global Status of CCS 
Formato Base de dados estruturada + explorador interativo Relatório anual narrativo (PDF) 
Entidade Organismo intergovernamental neutro Organização internacional dedicada à promoção e desenvolvimento do CCS 
Cobertura Projetos de grande escala com critérios técnicos estritos Mais abrangente, incluindo fases precoces e infraestrutura de transporte e armazenamento 
Dados de política Secundários Destaque central do relatório 
Acesso Gratuito com registo; licença CC BY 4.0 Relatório principal gratuito; conteúdos exclusivos para membros 
Atualização Anual (última: março 2026) Anual (publicação em outubro) 

Porque usar as duas? 

As diferenças entre as duas ferramentas não as tornam concorrentes, mas complementares. Para quem acompanha o setor, a combinação das duas oferece uma visão mais completa do que qualquer uma por si só. 

A base de dados da IEA é ideal quando se procura rigor técnico: saber quantos projetos existem, em que fase se encontram, qual a capacidade instalada e como evoluiu ao longo dos anos. É a fonte mais indicada para análises quantitativas ou para fundamentar argumentos baseados em factos verificáveis. 

O relatório do Global CCS Institute é mais útil para compreender o contexto em que esses projetos se desenvolvem: que políticas os estão a impulsionar, que acordos internacionais foram firmados, que novos modelos de negócio estão a emergir. É uma leitura mais narrativa, que ajuda a perceber as tendências para além dos números. 

Uma nota sobre interpretação. Os dois instrumentos diferem não apenas no formato, mas também na perspetiva. A IEA salienta que as tendências atuais são insuficientes para alinhar com uma trajetória de emissões líquidas zero a meio do século. O Global CCS Institute, por sua vez, destaca o progresso realizado e a maturação crescente do setor. Ambas as leituras têm fundamento e é precisamente a tensão entre ambas que torna a análise mais rica. 

O que dizem os dados mais recentes 

A atualização de 2025 da IEA mostrou que a capacidade de captura e armazenamento operacional atingiu cerca de 50 milhões de toneladas de CO₂ por ano, um progresso modesto face ao ano anterior. No que se refere ao pipeline de projetos, uma parte significativa (cerca de metade ou mais) da capacidade prevista encontra-se em fases avançadas ou em construção, o que representa uma melhoria significativa face a anos anteriores. 

O relatório do Global CCS Institute para 2025 aponta para um pipeline em crescimento contínuo, com avanços notáveis em infraestrutura de transporte e armazenamento e uma maior participação do setor privado. Destaca ainda o papel crescente dos mercados de carbono na viabilização financeira de novos projetos. 

Ambas as fontes convergem num ponto fundamental: o CCS está a sair de uma fase de promessa para uma fase de implementação concreta. A escala, porém, ainda fica aquém do que seria necessário para alinhar com as metas climáticas globais para 2030 e 2050. 

Fontes: IEA CCUS Projects Database (atualização de março de 2026); Global Status of CCS 2025, Global CCS Institute. Os dados citados referem-se às edições mais recentes disponíveis à data de publicação deste artigo.