
Em 2024, os veículos de matrícula portuguesa percorreram 79,7 mil milhões de veículos-quilómetro (vkm), o valor mais elevado desde o início da série, em 2015. Face ao ano anterior, o crescimento foi de 1,0%, consolidando a recuperação iniciada após o choque da pandemia de COVID-19, que em 2020 tinha provocado uma queda brusca de 11,3% no tráfego total.
O caminho de regresso foi gradual, mas consistente: acréscimo de 2,7% em 2021, de 7,7% em 2022 e de 5,1% em 2023. Em 2024, o ritmo de crescimento abrandou, mas o patamar atingido — 10,2% acima de 2015 — confirma que os portugueses estão a circular mais do que nunca. Uma tendência que coloca desafios acrescidos às metas de descarbonização do setor dos transportes, responsável por uma fatia significativa das emissões nacionais de gases com efeito de estufa.
Passageiros crescem, mercadorias recuam
A análise por tipo de veículo revela dinâmicas opostas. Os veículos ligeiros de passageiros, que representam 75,4% de todo o tráfego, cresceram 2,2% em 2024 e superaram pela primeira vez os 60 mil milhões de vkm. Pelo contrário, os veículos de mercadorias registaram decréscimos em todas as tipologias: -1,0% nos ligeiros, -3,5% nos pesados e -10,2% nos tratores rodoviários.
Este comportamento divergente pode refletir uma combinação de fatores: o aumento da mobilidade de pessoas associado ao crescimento do turismo e à retoma pós-pandemia, a par de uma possível moderação da atividade económica ligada ao transporte de bens. Os veículos pesados de passageiros, como autocarros, registaram uma ligeira queda de 2,3% após anos de forte recuperação, tendo atingido o seu máximo histórico em 2023.
O gasóleo perde terreno, mas ainda domina
O dado mais relevante do ponto de vista climático é a evolução por tipo de combustível. O gasóleo, que em 2015 representava 74,2% de todo o tráfego, desceu para 71,0% em 2024 e foi o único combustível a registar uma variação negativa em termos absolutos (-1,8%). Uma queda modesta, mas que sinaliza uma tendência estrutural.
| Tipo de combustível | Quota 2024 | Var. 2024/2023 |
| Gasóleo | 71,0% (-2,1 p.p.) | -1,8% |
| Gasolina | 20,8% (+0,3 p.p.) | +2,4% |
| GPL | 1,3% (+0,2 p.p.) | +17,1% |
| 100% Elétrico | 2,5% do total* | +40,6% |
| Híbrido plug-in | 1,8% do total* | +34,8% |
| Híbrido não plug-in | 2,4% do total* | +23,1% |
* Dentro do grupo ‘Híbridos, 100% Elétricos e Outros’, que representa 6,7% do total. Fonte: INE, Estatísticas do Tráfego Rodoviário 2015–2024.
O crescimento mais expressivo pertence aos veículos 100% elétricos, com um aumento de 40,6% face a 2023 e um crescimento acumulado de 2.112,7% desde 2015, partindo, é certo, de uma base muito reduzida. Em conjunto, híbridos e elétricos já representam 6,7% de todo o tráfego nacional, quando em 2015 eram apenas 0,3%. Dentro deste grupo, os 100% elétricos passaram a ser a categoria mais representada, com 38,1% do subtotal.
A A1 lidera, agosto é o mês de pico
O relatório do INE inclui ainda, pela primeira vez, dados detalhados sobre o tráfego nas autoestradas portuguesas, baseados nos contadores instalados nos sublanços. Em 2024, percorreram-se 842,9 milhões de vkm em autoestrada, dos quais 92% realizados por veículos ligeiros. Agosto foi o mês de maior circulação, com 87,6 milhões de vkm, um reflexo claro do peso do turismo e das deslocações de verão.
A A1 (Lisboa–Porto) concentra o maior volume de tráfego tanto de ligeiros (18,1% do total) como de pesados (23,0%), consolidando o corredor litoral como o mais congestionado do país. Para os pesados, a A25 (Vilar Formoso) e a A4 (Quintanilha) destacam-se como os principais eixos de ligação internacional, refletindo os fluxos de mercadorias entre Portugal e o resto da Europa.
O que estes dados dizem sobre a transição da mobilidade
Para as cidades e municípios com planos de ação climática, estes números enviam sinais mistos. Por um lado, o crescimento dos elétricos e híbridos é real e acelerado, o que sugere que as políticas de incentivo ao veículo elétrico estão a produzir efeito. Por outro, o tráfego total continua a crescer, o que significa que a eletrificação do parque ainda não é suficiente para compensar o aumento da circulação em termos de emissões absolutas.
A redução da dependência do automóvel privado — através de transportes públicos mais eficientes, mobilidade ativa e ordenamento urbano que reduza a necessidade de deslocação — continua a ser a alavanca mais poderosa para descarbonizar o setor dos transportes a nível local. Os dados de 2024 mostram que estamos a avançar, mas não ao ritmo necessário. Leia o relatório na íntegra aqui



