
Durante décadas, florestas, solos e vegetação funcionaram como os grandes aliados do planeta no combate à crise climática. Estes sumidouros de carbono terrestres absorvem parte do dióxido de carbono (CO₂) emitido pelas atividades humanas, ajudando a travar o aquecimento global.
Mas um novo estudo, publicado em 2025 na revista científica Earth System Science Data, lança um alerta preocupante: a capacidade de absorção do sumidouro terrestre tem vindo a enfraquecer desde os anos 1990. Se nada mudar, pode mesmo inverter-se até ao final do século, transformando-se numa fonte líquida de emissões.
O trabalho, intitulado The Global Land Carbon Sink (1960–2022), foi conduzido por uma equipa internacional de investigadores coordenada por Corinne Le Quéré (University of East Anglia, Reino Unido) e Pierre Friedlingstein (Universidade de Exeter, Reino Unido), em colaboração com mais de 70 cientistas.
Segundo o estudo, Eentre 2010 e 2019, o sumidouro terrestre absorveu em média 29% das emissões globais de CO₂ de origem humana. Sem este “serviço gratuito da natureza”, o aquecimento global já estaria em níveis muito mais perigosos.
Os investigadores sublinham, contudo, que este equilíbrio é frágil. “A taxa de crescimento do sumidouro de carbono terrestre abrandou, em particular nas florestas tropicais, onde o aquecimento, as secas e a desflorestação estão a reduzir a eficiência do sumidouro”, refere o estudo. Em paralelo, incêndios florestais mais intensos, secas prolongadas e degradação do solo reduzem ainda mais a capacidade de regeneração.
Amazónia e Congo: pontos de viragem
As florestas tropicais da Amazónia e da bacia do Congo concentram grande parte das atenções. Ambas desempenham um papel vital no sequestro de carbono, mas estão sob enorme pressão. Na Amazónia, a combinação de desflorestação acelerada, aumento de temperaturas e políticas frágeis de proteção ambiental está a transformar a região num laboratório de crise. O mesmo acontece no Congo, onde o avanço agrícola e a exploração de recursos ameaçam a estabilidade dos ecossistemas.
Se o sumidouro terrestre colapsar, os compromissos do Acordo de Paris, que visam limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C, tornam-se ainda mais difíceis de alcançar. A perda deste mecanismo natural implicaria um aumento muito mais rápido da concentração de gases com efeito de estufa na atmosfera, empurrando o mundo para cenários de aquecimento descontrolado.
Caminhos para a solução
O estudo aponta medidas urgentes:
- Proteger as florestas primárias e travar a desflorestação ilegal;
- Restaurar ecossistemas degradados e investir em reflorestação em larga escala;
- Adotar práticas agrícolas regenerativas que preservem o carbono do solo;
- Canalizar financiamento climático para países em desenvolvimento, que albergam os maiores sumidouros de carbono mas carecem de recursos para os proteger.
“O sumidouro terrestre é vulnerável às alterações climáticas e às pressões do uso da terra e não se pode assumir que continuará a compensar uma fração semelhante das emissões antropogénicas no futuro”, concluem os autores.
A mensagem central é inequívoca: sem proteger e restaurar os ecossistemas, a natureza deixará de ser aliada e passará a ser vítima — e fonte — da crise climática.



