Em quem confiamos sobre o tema das alterações climáticas? A resposta pode surpreender 

Quando se fala de alterações climáticas, a ciência é clara. Mas a forma como essa informação chega às pessoas, e sobretudo, quem a transmite, pode ser decisiva para que seja aceite ou ignorada. Um novo estudo internacional, publicado na revista Global Environmental Change, revela um dado desconcertante: em matéria de clima, confiamos menos nas instituições e mais em quem está perto de nós, ou seja, amigos, família e “pessoas como eu”. 

A confiança como peça-chave da ação climática 

O estudo Who do we trust on climate change, and why?, [Em quem acreditamos sobre alterações climáticas e porquê], baseado em dados de 6 479 participantes de 13 países, analisou não apenas quem é considerado uma fonte credível de informação climática, mas também porquê . A conclusão central é clara: a confiança é um fator determinante para que as pessoas aceitem informação científica e se sintam motivadas a agir. 

Apesar da narrativa recorrente sobre uma “crise de confiança” na ciência, os investigadores confirmam que os cientistas continuam a ser a fonte mais confiável de informação climática, sobretudo entre quem reconhece a gravidade das alterações climáticas. Mesmo entre os céticos, os cientistas surgem ainda entre as fontes mais confiáveis, embora com níveis de confiança mais baixos. 

Amigos e família no topo da credibilidade 

O dado mais surpreendente surge fora das instituições. “Amigos e família” e “pessoas como eu” estão entre as fontes mais confiáveis de informação climática, de forma consistente em todos os países analisados, independentemente da idade, género, nível de escolaridade ou orientação política. 

Entre os céticos climáticos, esta confiança em redes próximas é ainda mais forte, superando largamente a confiança em governos, media, empresas ou ativistas. Para os autores, este padrão reflete um fenómeno bem conhecido: quando a confiança institucional é frágil ou o tema é politicamente polarizado, as pessoas tendem a apoiar-se em relações de proximidade e identidade. 

Governos e líderes: quanto mais longe, menos confiança 

O estudo confirma também uma tendência persistente: figuras governamentais e líderes políticos estão entre as fontes menos confiáveis sobre clima. No entanto, há uma nuance relevante: entre os céticos, a confiança aumenta à medida que o nível de governação se torna mais local. Presidentes de câmara e líderes municipais são vistos como mais credíveis do que governos nacionais ou instituições centrais. 

Este dado reforça o papel estratégico das cidades e do poder local na comunicação e implementação da ação climática. 

O que torna alguém confiável? 

Mais do que o cargo ou o título, o estudo identifica características concretas que geram confiança. As mais valorizadas são: 

  • falar de forma clara e compreensível; 
  • apresentar dados e evidência; 
  • demonstrar que não existe interesse financeiro direto; 
  • não ser arrogante nem desvalorizar opiniões diferentes; 
  • partilhar valores com quem ouve; 
  • comunicar com autenticidade e envolvimento emocional. 

Importante: crentes e céticos valorizam atributos diferentes. Enquanto os primeiros dão mais peso às credenciais académicas, os segundos tendem a valorizar abertura, respeito e alinhamento de valores, mostrando que a confiança é profundamente moldada pela identidade e pela ideologia. 

Implicações para a comunicação climática 

Os autores defendem que estes resultados exigem uma mudança de abordagem. Em vez de depender exclusivamente de especialistas ou campanhas institucionais, a comunicação climática deve mobilizar redes locais, líderes comunitários e modelos de comunicação entre pares

Num mundo onde a informação é abundante, mas a confiança escassa, o desafio já não é apenas “dizer a verdade científica”, mas fazê-lo através de vozes que as pessoas reconhecem, compreendem e em quem confiam

A mensagem final do estudo é inequívoca: enfrentar a crise climática não depende apenas de melhores dados ou melhores políticas; depende também de relações humanas, proximidade e confiança. Sem isso, mesmo a ciência mais sólida corre o risco de não ser ouvida. 

Leia o estudo na íntegra aqui