
Um novo estudo científico publicado na revista Nature Energy apresenta a avaliação mais detalhada até à data do potencial de produção de energia solar fotovoltaica nos telhados dos edifícios da União Europeia, com implicações diretas para as políticas climáticas e energéticas a nível local e municipal .
A investigação foi desenvolvida por investigadores do Joint Research Centre (JRC) da Comissão Europeia e de centros científicos europeus, recorrendo ao European Digital Building Stock Model (DBSM R2025), uma base de dados aberta que mapeia 271 milhões de edifícios em todos os Estados-Membros.
Contexto: edifícios no centro da transição energética
Os edifícios são responsáveis por cerca de 42% do consumo energético e 36% das emissões de gases com efeito de estufa relacionadas com energia na União Europeia. Ao mesmo tempo, estima-se que 85 a 95% do parque edificado atual continuará em uso até 2050, o que torna essencial integrar soluções renováveis nos edifícios existentes.
Apesar disso, apenas cerca de 10% dos telhados europeus têm atualmente painéis solares instalados, revelando um potencial ainda largamente por explorar.
Principais conclusões do estudo
De acordo com os resultados do estudo:
- O potencial técnico total de energia solar fotovoltaica em telhados na UE pode atingir 2,3 terawatts-pico (TWp).
- Essa capacidade permitiria gerar cerca de 2.750 terawatts-hora (TWh) por ano, o que corresponde a aproximadamente 40% da eletricidade necessária num cenário europeu de 100% renovável em 2050.
- Os edifícios não residenciais (como escolas, hospitais, equipamentos municipais, superfícies comerciais e industriais) têm um peso particularmente relevante: em muitos países, os seus telhados poderiam cobrir mais de 50% dos objetivos nacionais de energia solar para 2030.
- Edifícios de maior dimensão (com área superior a 2.000 m²) concentram uma parte significativa do potencial, tornando-os estratégicos para uma implementação rápida e em larga escala.
O estudo mostra ainda que, em vários Estados-Membros, a energia produzida nos telhados poderia igualar ou mesmo exceder o consumo elétrico atual, se combinada com soluções de armazenamento, eletrificação de usos finais e gestão inteligente da procura.
Uma ferramenta estratégica para municípios e territórios
Um dos principais contributos do estudo é a disponibilização de uma base de dados aberta, ao nível de cada edifício, que permite apoiar:
- o planeamento energético municipal e regional;
- a identificação de edifícios prioritários para instalação de painéis solares;
- o desenho de Comunidades de Energia Renovável;
- a integração da energia solar em processos de reabilitação urbana;
- a tomada de decisão baseada em evidência científica.
Esta abordagem de elevada resolução permite ultrapassar limitações de estudos anteriores, que trabalhavam apenas com médias nacionais ou regionais, e reforça o papel das cidades e dos territórios como agentes centrais da transição energética.
Relevância para a ação climática local
Para redes como a Cidades pelo Clima, este estudo reforça uma mensagem-chave: a transição energética é, em grande medida, uma agenda urbana e territorial. A utilização estratégica dos telhados existentes — públicos e privados — pode acelerar a descarbonização, reduzir custos energéticos, aumentar a resiliência local e envolver cidadãos e comunidades na produção de energia limpa.
Ao demonstrar que o potencial técnico já existe e está quantificado, o estudo desloca o foco para os desafios da governança, planeamento, financiamento e implementação local, áreas onde os municípios e as redes de cidades desempenham um papel decisivo.



