
A disponibilidade de água doce à escala global encontra-se num ponto crítico. O Global Water Bankruptcy Report 2026 apresenta evidência robusta de que muitos sistemas hídricos ultrapassaram a sua capacidade de renovação natural, entrando numa situação de défice estrutural entre oferta e procura. Este fenómeno, designado no relatório como water bankruptcy, constitui hoje um dos principais riscos sistémicos associados às alterações climáticas, à segurança alimentar e à saúde pública.
Definição e critérios de “falência hídrica”
De acordo com o relatório, um sistema entra em falência hídrica quando:
- a extração de águas superficiais e subterrâneas excede consistentemente a recarga natural;
- os ecossistemas aquáticos perdem capacidade funcional;
- a qualidade da água se deteriora de forma persistente;
- a variabilidade climática intensifica eventos extremos, comprometendo a gestão previsível do recurso.
Estes critérios são observados simultaneamente em múltiplas regiões do mundo, incluindo zonas temperadas tradicionalmente consideradas seguras do ponto de vista hídrico.
Escala e distribuição do problema
O relatório indica que mais de 50% da população mundial vive atualmente em regiões com stress hídrico elevado ou severo, sendo expectável um agravamento até 2050 na ausência de medidas estruturais. A sobre-exploração de aquíferos profundos, muitas vezes não renováveis à escala humana, é identificada como um dos fatores mais críticos, particularmente em contextos urbanos e agrícolas intensivos.
A análise demonstra ainda que a crise não é apenas quantitativa, mas também qualitativa: a poluição difusa, a salinização e o aumento da temperatura da água reduzem significativamente a fração de água efetivamente utilizável.
Dimensão climática e retroalimentação do sistema
O Global Water Bankruptcy Report 2026 estabelece uma ligação direta entre alterações climáticas e degradação hídrica. O aumento da temperatura média global intensifica a evapotranspiração, altera padrões de precipitação e reduz a previsibilidade dos ciclos hidrológicos.
Estes fatores criam um efeito de retroalimentação negativa: sistemas hídricos degradados tornam-se menos resilientes a extremos climáticos, agravando perdas económicas, impactos ecológicos e riscos sanitários.
Box | Portugal — Emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE)
📍 Tendência de redução
• Em 2023, Portugal emitiu 53,2 Mt CO₂ eq (sem LULUCF), uma redução de 38,1% desde 2005.
📍 Ranking na UE
• Portugal foi um dos países com maiores quedas de CO₂ em 2024 entre os Estados-Membros da UE, com uma diminuição de -9,0% nas emissões de CO₂.
📍 Emissões per capita
• Em 2023, as emissões per capita em Portugal foram de cerca de 5 t CO₂, colocando o país entre os mais baixos da UE (atrás de Malta e Suécia).
📍 Transporte e desafios setoriais
• Os transportes continuam a ser um dos setores mais problemáticos em termos de emissões, refletindo desafios que também se observam na Europa em geral e que exigem políticas mais profundas.
Consumo humano e pressão indireta sobre os recursos
Embora a maior parcela da água doce seja utilizada nos setores agrícola e energético, o relatório sublinha que os padrões de consumo humano têm um impacto indireto significativo, através da chamada pegada hídrica virtual. Esta inclui a água utilizada ao longo de toda a cadeia de produção de alimentos e bebidas.
Bebidas processadas, engarrafadas e açucaradas apresentam, segundo os dados compilados, uma pegada hídrica substancialmente superior à da água da torneira, não apenas pelo volume direto de água, mas pelo processamento industrial, embalamento e transporte associados.
O relatório identifica os sistemas públicos de abastecimento de água potável como infraestruturas críticas para a adaptação climática. Em países com redes seguras e reguladas, a promoção do consumo de água da torneira é apontada como medida de mitigação relevante, reduzindo pressão sobre recursos naturais e emissões associadas à produção de alternativas engarrafadas.
A gestão eficiente destes sistemas surge como prioridade estratégica, equiparada à energia e à alimentação em termos de segurança nacional e regional.
Implicações para políticas públicas e investigação
O Global Water Bankruptcy Report 2026 conclui que a resposta à falência hídrica exige:
- planeamento integrado de bacias hidrográficas;
- proteção e recuperação de aquíferos;
- redução do desperdício ao longo de toda a cadeia de consumo;
- alinhamento entre políticas climáticas, agrícolas, urbanas e de saúde pública.
O relatório reforça ainda a necessidade de investimento em monitorização científica contínua, dados abertos e cooperação internacional, reconhecendo a água como um recurso transfronteiriço por natureza.
A falência hídrica global não constitui um cenário futuro, mas uma realidade mensurável e em progressão. O Global Water Bankruptcy Report 2026 fornece um enquadramento científico claro para compreender a dimensão do problema e a urgência da ação.
A gestão sustentável da água emerge, assim, como um dos pilares centrais da resiliência climática, da saúde pública e da estabilidade socioeconómica nas próximas décadas.



