
Uma sucessão de tempestades intensas atingiu o Mediterrâneo ocidental nas primeiras semanas de 2026, provocando inundações, destruição de infraestruturas e milhares de deslocados em vários países. Portugal, Espanha e Marrocos estiveram entre os mais afetados por um período invulgarmente ativo de sistemas meteorológicos, num contexto em que a ciência aponta para um aumento da intensidade de eventos extremos num clima em aquecimento.
Entre 16 de janeiro e o início de fevereiro, nove tempestades nomeadas atravessaram a região. Em Portugal, a tempestade Kristin provocou seis mortos, rajadas de vento que chegaram aos 202 km/h e deixou cerca de um milhão de pessoas sem eletricidade, além de danos significativos em infraestruturas.
Em Espanha, as cheias forçaram mais de 12.400 evacuações e afetaram cerca de 115 mil pessoas em 19 localidades da Serra de Cádiz.
Já no norte de Marrocos, as inundações causaram 43 mortos, deslocaram cerca de 300 mil pessoas e inundaram 110 mil habitações.
Embora os ventos fortes tenham contribuído para parte dos estragos, muitos dos impactos mais graves resultaram da chuva extremamente intensa, que provocou cheias rápidas em várias regiões. À medida que as tempestades se sucederam, os solos saturados aumentaram ainda mais o risco de inundações.
O que diz a ciência sobre estes eventos
Uma análise conduzida pela rede internacional World Weather Attribution avaliou até que ponto as alterações climáticas provocadas pela atividade humana poderão ter influenciado estes episódios de precipitação extrema.
A rede reúne cientistas de várias instituições académicas e centros de investigação em diferentes continentes, incluindo investigadores de Portugal, Espanha, Marrocos, Países Baixos, Suécia, Suíça, Dinamarca, Reino Unido, Estados Unidos, Índia e África do Sul. Este tipo de estudos integra o campo da Event Attribution Science, que procura determinar se e como o aquecimento global altera a probabilidade ou intensidade de fenómenos meteorológicos extremos.
Os investigadores analisaram a precipitação máxima num único dia — um indicador conhecido como Rx1day — durante o semestre húmido (outubro a março). Este índice é amplamente utilizado para estudar extremos de chuva, permitindo comparar a intensidade dos eventos atuais com os registos históricos.
A análise concentrou-se em duas regiões com características climáticas distintas mas fortemente afetadas pelas tempestades recentes:
- Norte de Portugal e noroeste de Espanha
- Sul de Portugal, sudoeste de Espanha e norte de Marrocos
Para avaliar a influência das alterações climáticas, os investigadores combinaram dados observacionais desde 1950, reanálises atmosféricas e simulações de modelos climáticos, comparando o clima atual com cenários hipotéticos sem aquecimento global.
Chuvas mais intensas nas últimas décadas
Os resultados mostram que a intensidade das chuvas extremas aumentou nas últimas décadas. Desde 1950, a precipitação máxima diária registou um aumento de cerca de 36% na região sul analisada e de 29% na região norte, segundo os dados observacionais.
Os cientistas sublinham, contudo, que existe incerteza científica significativa, sobretudo no sul da região, onde os modelos climáticos não reproduzem totalmente a tendência observada. Ainda assim, as diferentes linhas de evidência apontam para um aumento da intensidade dos episódios mais extremos de precipitação.
O estudo conclui também que, embora eventos desta magnitude não sejam impossíveis no clima atual, a sua ocorrência pode tornar-se progressivamente mais frequente ou intensa num contexto de aquecimento global e de maior disponibilidade de humidade na atmosfera.
Exposição crescente nas zonas inundáveis
Para além do fenómeno meteorológico em si, os investigadores destacam que os impactos dependem fortemente da exposição e da vulnerabilidade das populações.
Áreas urbanas densamente povoadas, especialmente onde o crescimento urbano associado ao turismo avançou sobre planícies de inundação, revelaram-se particularmente expostas. Também as localidades costeiras baixas e vulneráveis à erosão enfrentam riscos acrescidos.
Em Marrocos, a situação foi agravada por fatores sociais, com muitas pessoas a viver em assentamentos informais, onde a qualidade da habitação e das infraestruturas é limitada.
Segundo os investigadores, a combinação de perigos climáticos, exposição territorial e vulnerabilidade social explica grande parte dos impactos registados.
Alertas e resposta: progressos, mas também lacunas
Os cientistas sublinham que os sistemas de alerta precoce funcionaram relativamente bem nos três países, permitindo evacuações e medidas preventivas que ajudaram a limitar o número de vítimas.
Ainda assim, o estudo aponta para a necessidade de melhor articulação entre os níveis nacional e municipal, bem como de maior investimento em capacidades locais de resposta.
Para reduzir riscos futuros, os investigadores defendem que a informação sobre desastres deve integrar:
- mapas de exposição e vulnerabilidade
- avaliações de risco climático
- projeções de alterações climáticas
Estes dados devem depois orientar decisões de ordenamento do território, códigos de construção e investimento em infraestruturas.
Planeamento urbano e adaptação climática
Os episódios recentes reforçam uma conclusão que tem sido cada vez mais sublinhada pela comunidade científica: os impactos dos fenómenos extremos dependem tanto do clima como das escolhas de planeamento territorial.
Construir em zonas inundáveis, impermeabilizar solos urbanos ou manter infraestruturas dimensionadas para o clima do século XX pode amplificar significativamente os danos de eventos meteorológicos extremos.
Por isso, os investigadores defendem que políticas públicas de adaptação devem incluir:
- planeamento urbano baseado em risco climático
- reforço da resiliência das infraestruturas críticas
- proteção e recuperação de zonas naturais de retenção de água
- sistemas de alerta e resposta mais claros para a população
Num clima em rápida mudança, concluem, a adaptação deixou de ser apenas uma questão ambiental, mas é também uma questão de segurança, planeamento e desenvolvimento territorial.



