A bomba climático-orçamental em Portugal 

Nos últimos anos, Portugal tem apresentado sinais positivos nas suas contas públicas. Em 2024, o país registou um excedente orçamental de 0,7% (INE) e uma redução da dívida pública para 93,6% do PIB. Este desempenho contribuiu para a melhoria da percepção internacional sobre a economia portuguesa, refletida na subida do rating soberano pela agência Fitch em setembro de 2025. 

Contudo, estes indicadores tradicionais — défice e dívida pública — não contam toda a história. Embora sejam frequentemente utilizados como referência para avaliar a sustentabilidade das finanças públicas, ignoram fatores cruciais como o crescimento económico, os efeitos multiplicadores do investimento, a inflação, as taxas de juro e, cada vez mais, os riscos associados às alterações climáticas. Assim, uma análise mais abrangente revela desafios estruturais que podem comprometer a estabilidade futura. 

O peso crescente dos custos climáticos 

Os impactos das alterações climáticas já são evidentes e têm vindo a intensificar-se. O verão de 2025 foi marcado por uma época de incêndios extremamente severa na Península Ibérica, com cerca de 260 mil hectares ardidos em Portugal, um valor muito acima da média habitual. No sul do país, especialmente no Algarve, a seca estrutural continua a exigir medidas de emergência, incluindo o fornecimento de água em volumes equivalentes ao consumo anual urbano da região. 

Além disso, fenómenos meteorológicos extremos tornaram-se mais frequentes. No final de janeiro de 2026, o ‘comboio de tempestades’ causou vítimas mortais, deixou milhares de pessoas sem eletricidade e provocou prejuízos estimados em 755 milhões de euros. Infraestruturas críticas, como autoestradas, e inúmeras habitações foram destruídas, evidenciando a vulnerabilidade do território. 

Estudos científicos reforçam esta tendência: a Península Ibérica atravessa o período mais seco dos últimos 1.200 anos, o que aponta para uma pressão crescente sobre recursos naturais e económicos. 

Projeções preocupantes para a economia 

De acordo com projeções da Organisation for Economic Co-operation and Development (OCDE), o impacto das alterações climáticas poderá reduzir o PIB português em cerca de 14% até 2050 e 20% até 2070, caso não sejam adotadas medidas adicionais. 

Projeções climáticas e fiscais para Portugal 

Cenário 2050 (impacto na dívida) 2070 (impacto na dívida) Interpretação 
Sem mudanças (BAU) +72 p.p. +230 p.p. Pior cenário: dívida dispara muito 
Ação antecipada + adaptação +57 p.p. +86 p.p. Melhor, mas ainda com custos elevados 
Ação atrasada + pouca adaptação +69 p.p. +113 p.p. Quase tão mau como não agir 
Ação precoce + cooperação global +6 p.p. –19 p.p. Melhor cenário: dívida controlada e até reduz 
Ação precoce + impostos progressivos +14 p.p. –1 p.p.  Equilíbrio entre política climática e fiscal 

Fonte: Organisation for Economic Co-operation and Development (OCDE) 

Modelos económicos mostram que, sob políticas atuais (cenário “business as usual”), a dívida pública poderá aumentar drasticamente em comparação com um cenário sem impacto climático: mais 72 pontos percentuais até 2050 e 230 até 2070. Mesmo com alguma adaptação e mitigação, os custos continuam elevados, embora significativamente menores. 

Por outro lado, cenários que combinam ação precoce da União Europeia com cooperação global apresentam resultados muito mais favoráveis. Nestes casos, o aumento da dívida é marginal em 2050 e pode até diminuir até 2070.  

Perante este cenário, torna-se evidente que a sustentabilidade das finanças públicas não pode ser avaliada apenas com base em métricas tradicionais. A rigidez de metas numéricas de dívida pode limitar investimentos essenciais, especialmente aqueles destinados à mitigação e adaptação climática.