
As cidades estão hoje na linha da frente da resposta à crise climática. Concentram população, emissões, riscos e impactos, mas também inovação, capacidade de ação e soluções concretas. O mais recente Global Climate Action Report 2025 do Global Covenant of Mayors confirma essa realidade: apesar de operarem num contexto de recursos limitados e crescente pressão climática, milhares de cidades em todo o mundo estão a agir de forma cada vez mais estruturada e transparente.
O relatório, que analisa dados reportados por mais de 13 000 cidades e governos locais, representa uma das mais completas avaliações globais da ação climática urbana, com base em informação submetida através das plataformas CDP-ICLEI Track e MyCovenant.
Cidades comprometidas, ação em curso
De acordo com o relatório, mais de 70% das cidades que reportam dados já têm metas climáticas definidas, e uma parte significativa estabeleceu objetivos de neutralidade climática até 2050 ou antes. Este compromisso traduz-se em planos de ação climática, inventários de emissões, estratégias de adaptação e mecanismos de monitorização que colocam os governos locais como atores centrais no cumprimento do Acordo de Paris.
O relatório mostra ainda que as cidades que reportam dados de forma regular tendem a apresentar níveis mais elevados de ambição, melhor planeamento e maior capacidade de atrair financiamento, reforçando a importância da transparência como instrumento de política pública.
Mitigação e adaptação: duas frentes inseparáveis
Embora a redução de emissões continue a ser um eixo central da ação urbana — com forte incidência nos setores da energia, edifícios e mobilidade — o relatório evidencia um crescimento significativo das estratégias de adaptação e resiliência climática.
Mais de 80% das cidades analisadas identificam riscos climáticos relevantes, como ondas de calor, cheias, secas ou incêndios, e um número crescente já está a implementar medidas para responder a esses riscos. No entanto, o relatório alerta para um desfasamento persistente entre identificação do risco e implementação efetiva de soluções, sobretudo em cidades com menor capacidade técnica e financeira.
O desafio do financiamento climático local
Um dos principais constrangimentos identificados no relatório é o acesso a financiamento. Apesar da crescente ambição climática, menos de metade das cidades reporta ter financiamento garantido para implementar os seus planos climáticos. Este fosso entre planeamento e execução é particularmente crítico no Sul Global, mas continua a ser um desafio também para muitas cidades europeias.
O Global Climate Action Report 2025 sublinha a necessidade de instrumentos financeiros mais acessíveis, previsíveis e ajustados à escala local, bem como de reforço da assistência técnica para apoiar a maturação de projetos e a articulação com investidores públicos e privados.
O relatório destaca ainda o papel dos dados como alicerce da ação climática eficaz. Cidades que reportam de forma consistente apresentam melhores resultados na definição de prioridades, na monitorização de impactos e na articulação com políticas nacionais e europeias.
Neste contexto, a governação multinível surge como um fator crítico de sucesso. A cooperação entre municípios, Estados e instituições internacionais é apresentada como essencial para garantir coerência política, estabilidade de longo prazo e escalabilidade das soluções locais.
Implicações para as cidades portuguesas
Para as cidades portuguesas, muitas delas integradas em redes internacionais como o Global Covenant of Mayors, a Missão Europeia das Cidades e a Cidades pelo Clima, os resultados reforçam a importância de alinhar ambição climática com capacidade de implementação.
O relatório confirma que as cidades que investem em planeamento, reporte e colaboração em rede estão melhor posicionadas para aceder a financiamento, experimentar soluções inovadoras e acelerar a transição para a neutralidade climática.
A Cidades pelo Clima assume aqui um papel estratégico, ao apoiar os municípios na capacitação técnica, na partilha de conhecimento e na articulação com iniciativas europeias e globais, contribuindo para que a ação climática local seja não apenas ambiciosa, mas também exequível, justa e mensurável.
O relatório completo pode ser consultado no site oficial do GCoM.



