
A transição energética europeia atingiu em 2025 um ponto de viragem histórico. Pela primeira vez, a eletricidade gerada a partir de fontes renováveis — em particular energia eólica e solar — ultrapassou a produção proveniente de combustíveis fósseis na União Europeia. Os dados constam do European Electricity Review 2026, relatório anual da organização Ember, que analisa a evolução do setor elétrico nos 27 Estados-Membros.
De acordo com o estudo, a energia eólica e solar representaram 30,1% da eletricidade produzida na UE em 2025, enquanto todas as fontes fósseis em conjunto ficaram nos 29,0%. No total, as renováveis asseguraram quase metade da eletricidade europeia (47,7%), um valor semelhante ao de 2024, mas alcançado num contexto climático adverso, com menos vento e menos precipitação em grande parte da Europa.
Um crescimento estrutural, não um acaso
Este marco não resulta de um ano excecional, mas de uma tendência sustentada ao longo da última década. Em 2015, a energia eólica e solar representavam menos de 20% da eletricidade europeia. Em apenas dez anos, ganharam mais de dez pontos percentuais, impulsionadas por investimento contínuo, redução dos custos tecnológicos e metas climáticas cada vez mais ambiciosas.
Em 14 dos 27 países da UE, a eletricidade produzida por vento e sol já supera a gerada por combustíveis fósseis. Países como os Países Baixos e a Croácia atingiram este patamar pela primeira vez em 2025, enquanto outros, tradicionalmente dependentes do carvão, aproximam-se rapidamente desse limiar.
Solar em forte aceleração, carvão em declínio acentuado
A energia solar foi o grande destaque do ano. Em 2025, a produção solar atingiu um novo recorde de 369 TWh, mais 20% do que em 2024. Este crescimento foi registado em todos os Estados-Membros e levou a que a solar representasse 13% da eletricidade europeia, ultrapassando tanto a energia hídrica como o carvão.
O carvão, por sua vez, continuou a sua trajetória de declínio estrutural. Em 2025, representou apenas 9,2% da eletricidade da UE, o valor mais baixo de sempre. Em 19 países, o carvão já é inexistente ou residual (menos de 5% do mix elétrico). Alemanha e Polónia concentram ainda mais de 70% da produção a carvão da UE, mas também aí os valores atingiram mínimos históricos.
O papel ambíguo do gás e o impacto nos preços
Apesar do avanço das renováveis, o relatório mostra que a dependência do gás natural continua a ser um fator crítico. Em 2025, a produção elétrica a gás aumentou 8% face a 2024, em grande parte para compensar a quebra da produção hídrica. Este aumento traduziu-se num custo elevado: a fatura europeia com importações de gás para produção elétrica subiu para 32 mil milhões de euros, mais 16% do que no ano anterior.
O gás continua a ser o combustível que define o preço da eletricidade nos mercados grossistas, sobretudo nas horas de maior consumo. Em 21 países, os preços médios da eletricidade aumentaram em 2025, impulsionados por picos de preço nos períodos em que o sistema depende mais das centrais a gás.
Baterias e redes: o próximo grande desafio
O relatório identifica sinais claros de que a próxima fase da transição energética dependerá menos da instalação de nova capacidade renovável e mais da capacidade de integrar essa energia no sistema. O armazenamento por baterias, o reforço das redes elétricas e a flexibilidade da procura surgem como elementos-chave.
Em 2025, a capacidade instalada de baterias à escala da rede ultrapassou 10 GW na UE, mais do dobro do valor registado em 2023. Se todos os projetos atualmente em pipeline se concretizarem, a capacidade poderá ultrapassar os 40 GW, reduzindo a necessidade de recorrer a gás nas horas de maior consumo e ajudando a estabilizar os preços.
Um sinal claro para decisores e cidades
O relatório European Electricity Review 2026 demonstra desta forma que a transição energética europeia já não é uma ambição futura, mas sim uma realidade mensurável. No entanto, o documento alerta que o ritmo atual só será suficiente se for acompanhado por políticas públicas que acelerem a eletrificação dos transportes, da indústria e do aquecimento, ao mesmo tempo que garantem uma transição justa e preços acessíveis.
Para as cidades e autoridades locais, este momento representa uma oportunidade estratégica. O investimento em produção renovável descentralizada, armazenamento, eficiência energética e flexibilidade da procura não é um instrumento eficaz para reforçar a segurança energética, reduzir custos e aumentar a resiliência dos territórios num contexto geopolítico cada vez mais instável.
Eletricidade na UE em 2025 – Os números essenciais
- 30,1% da eletricidade da UE foi gerada por energia eólica e solar
(pela primeira vez acima do total das fontes fósseis: 29,0%)
- 47,7% da eletricidade europeia teve origem em fontes renováveis
- 369 TWh de eletricidade solar produzidos em 2025
(+20% face a 2024; mais do dobro de 2020)
- 14 países da UE já produzem mais eletricidade com vento e sol do que com combustíveis fósseis
- 9,2% foi a quota do carvão no mix elétrico europeu
(mínimo histórico; em 19 países é residual ou inexistente)
- +8% de aumento da produção elétrica a gás em 2025
associado a uma quebra da produção hídrica
- 32 mil milhões de euros gastos pela UE em importações de gás para produção elétrica
(+16% face a 2024)
- >10 GW de capacidade de baterias já instalada na UE
com um pipeline que pode ultrapassar 40 GW
Fonte: European Electricity Review 2026, Ember



