
A inovação energética global entrou numa nova fase. Se, na última década, o combate às alterações climáticas foi o principal motor da transformação tecnológica, em 2025 a agenda passou a ser liderada por duas prioridades: competitividade económica e segurança energética. É esta a principal conclusão do relatório “The State of Energy Innovation 2026”, publicado pela International Energy Agency (IEA), que traça um retrato abrangente do ecossistema mundial de inovação no setor da energia.
A segunda edição do estudo analisa mais de 150 destaques tecnológicos de 2025, dados de despesa pública e privada em I&D (conjunto de atividades destinadas a criar ou melhorar produtos, serviços e tecnologias através da investigação e inovação), fluxos de capital de risco, patentes e políticas públicas, bem como o progresso nas 18 “Races to First” definidas pela agência para acelerar avanços críticos no sistema energético.
Objetivo: medir o pulso à inovação energética global
O relatório tem como propósito oferecer uma ‘fotografia’ atualizada do estado da inovação energética. Ao combinar métricas quantitativas (gastos em I&D, patentes, capital de risco) com análise qualitativa e um inquérito a mais de 270 especialistas em mais de 40 países, a IEA pretende informar decisores públicos, investidores e indústria sobre onde a inovação está a acelerar, quais as áreas que enfrentam bloqueios financeiros ou regulatórios e como alinhar políticas públicas com objetivos de longo prazo.
O estudo sublinha que a inovação em energia tem impactos económicos e sociais desproporcionais: mercados globais de tecnologias como baterias, turbinas, transformadores ou motores valem já biliões de dólares, num setor que representa até 10% do PIB mundial.
Principais conclusões: um ecossistema dinâmico, mas em transição
- Segurança energética é o novo motor da inovação
Segundo o inquérito da IEA, 80% dos especialistas colocaram a segurança energética entre os três principais motores da inovação em 2025, à frente da redução de emissões e até do desempenho económico nacional. Esta mudança reflete tensões geopolíticas, riscos nas cadeias de abastecimento e aumento da procura elétrica, nomeadamente impulsionada por data centers e inteligência artificial.
- Investimento público compensa
Uma das mensagens mais fortes do relatório é a eficácia do investimento público em inovação energética. Avaliações retrospetivas de programas de I&D nos Estados Unidos indicam que os benefícios económicos podem ser pelo menos 3 vezes superiores aos custos e que, em alguns casos, centenas de dólares de retorno por cada dólar investido.
O relatório mostra que tecnologias hoje consolidadas, como baterias de iões de lítio ou geotermia avançada, tiveram origem em programas públicos iniciados nas décadas de 1970 e 1980.
No entanto, a despesa pública global em I&D energética deverá cair para 55 mil milhões de dólares em 2025, menos 2% face ao ano anterior. Nos países-membros da IEA, representa apenas 0,05% do PIB, metade do que foi investido após os choques petrolíferos dos anos 1970.
3. Capital de risco abranda — mas redefine prioridades
O financiamento por capital de risco (VC) em tecnologias energéticas caiu pelo terceiro ano consecutivo, fixando-se em 27 mil milhões de dólares em 2025. Parte da explicação está na concorrência com o setor da inteligência artificial, que captou quase 30% do financiamento global de VC.
Apesar do recuo geral, novas áreas emergem como polos de crescimento, caso da remoção de dióxido de carbono (CDR), os minerais críticos, a geotermia de próxima geração, a produção industrial de baixas emissões e a fissão e fusão nuclear.
Estas sete áreas representavam menos de 5% do VC energético entre 2015 e 2019; em 2025, já absorvem um terço do total.
4. Baterias dominam a inovação patenteada
Um dos KPI mais impressionantes do relatório é o peso das baterias no sistema global de patentes:
40% de todas as patentes energéticas em 2023 referem-se a armazenamento de energia e a tendência deverá intensificar-se em 2024 e 2025 são as conclusões do relatório. Isto significa que nunca uma tecnologia energética concentrou uma fatia tão dominante da atividade de patenteamento.
A liderança deslocou-se fortemente para a China, que passou de 4% das patentes de materiais de cátodo em 2010 para quase 40% em 2022.
Tendências regionais: divergência crescente
O relatório aponta trajetórias distintas entre grandes blocos económicos:
- China: responde por 60% da I&D corporativa global no setor de fornecimento e infraestruturas energéticas; duplicou pedidos internacionais de patentes energéticas entre 2020 e 2023.
- Europa: aproxima-se de 0,08% do PIB em I&D energética pública; concentra 40% dos projetos mais avançados das “Races to First”.
- Estados Unidos: continuam a captar quase 50% do capital de risco energético global, apesar de cortes de 8% no orçamento federal de I&D energética em 2025.
- Japão: mantém forte especialização em baterias avançadas e tecnologias emergentes como fusão e combustíveis à base de hidrogénio.
Dois campos críticos: redes elétricas e fusão
O relatório dedica capítulos aprofundados a duas áreas estratégicas.
Resiliência das redes elétricas
Blackouts recentes evidenciam a necessidade de redes mais robustas. Tecnologias como inversores formadores de rede, transformadores de estado sólido e armazenamento de longa duração já demonstram maturidade técnica, mas enfrentam entraves regulatórios.
Fusão nuclear
Após 50 anos de cooperação internacional, a fusão aproxima-se da fase de demonstração. Startups do setor captaram 10 mil milhões de dólares desde 2020. Ainda assim, desafios materiais e de ciclo de combustível permanecem significativos.
Um momento de inflexão
O “The State of Energy Innovation 2026” deixa claro que a inovação energética não está a abrandar, mas está a mudar de natureza.
O foco desloca-se de uma narrativa predominantemente climática para uma agenda mais ampla de competitividade industrial, autonomia estratégica e segurança energética. A transição energética continua central, mas passa a ser enquadrada como instrumento de soberania e crescimento económico.
A mensagem final da IEA é inequívoca: inovação energética exige continuidade, estabilidade regulatória e investimento sustentado. Num contexto de maior fragmentação geopolítica e competição por capital, a capacidade de alinhar políticas públicas com financiamento privado será determinante para o ritmo da transformação energética na próxima década.



