
Em 2024, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera atingiu 423,9 ppm, o valor mais elevado alguma vez registado em dois milhões de anos. Este número, por si só, resume o retrato traçado pelo mais recente relatório da Organização Meteorológica Mundial (WMO): um sistema climático sob pressão crescente, onde múltiplos indicadores convergem na mesma direção e continuam a bater recordes históricos.
O documento, que analisa o estado do clima em 2025, não traz surpresas, mas confirma, com novos dados, a aceleração de tendências já conhecidas. Da atmosfera aos oceanos, do gelo polar aos eventos extremos, os sinais são inequívocos.
A atmosfera: gases em máximos históricos
A concentração de CO₂ registada em 2024 representa 152% dos níveis pré-industriais e o maior aumento anual desde o início das medições sistemáticas, em 1957. Mas o dióxido de carbono não está sozinho: o metano atingiu 266% dos níveis pré-industriais, impulsionado sobretudo pela pecuária, pelos aterros sanitários e pela extração de combustíveis fósseis, e o óxido nitroso, associado principalmente à agricultura e ao uso de fertilizantes, chegou aos 125%. Os três principais gases com efeito de estufa continuam a aumentar também em 2025, aprofundando o desequilíbrio energético do planeta.
Este desequilíbrio — a diferença entre a energia solar que entra no sistema climático e a que é libertada para o espaço — é precisamente o novo indicador introduzido pelo relatório. O seu aumento confirma que a Terra continua a acumular energia, independentemente do que se passa à superfície. E este é um ponto crítico: o aquecimento que sentimos no dia a dia representa apenas 1% desse excesso. O restante está escondido, em grande parte, nos oceanos.
Oceanos e gelo: onde o calor se acumula
Cerca de 91% do excesso de energia gerado pelo aquecimento global é absorvido pelos oceanos. Em 2025, o conteúdo térmico dos oceanos atingiu um novo máximo histórico. Para além de acumularem calor, os oceanos têm também absorvido 29% das emissões de CO₂ da última década, um papel amortecedor essencial, mas com custos elevados: a acidificação das águas está a intensificar-se, com impactos diretos nos ecossistemas marinhos e nas cadeias alimentares de que dependem milhões de pessoas.
O aquecimento dos oceanos tem ainda consequências diretas sobre o gelo polar. Desde 2016, oito dos dez anos com maior perda de massa glaciar ocorreram neste período recente. A extensão do gelo marinho no Ártico e na Antártida tem vindo a diminuir de forma consistente, com mínimos históricos registados nos últimos anos. O resultado combina-se com a expansão térmica dos oceanos para acelerar a subida do nível médio do mar, uma tendência em curso desde 1993, com impactos crescentes em zonas costeiras de todo o mundo.
Temperaturas e eventos extremos
Os dados de temperatura confirmam o que os modelos climáticos previam: os três anos mais recentes são os mais quentes dos últimos 176 anos de registos. Embora 2025 tenha sido ligeiramente menos quente do que 2024, devido à transição de El Niño para La Niña, situa-se entre o segundo e o terceiro ano mais quente alguma vez registado.
Este aquecimento traduz-se num aumento da frequência e intensidade de eventos extremos: ondas de calor, cheias, secas e ciclones com efeitos em cadeia sobre sociedades e economias. O relatório sublinha uma dimensão frequentemente esquecida neste contexto: a desigualdade de impactos. As comunidades mais vulneráveis são sistematicamente as mais afetadas, apesar de contribuírem de forma marginal para as emissões globais que estão na origem do problema.
O relatório da WMO reforça uma mensagem que a ciência climática repete há décadas, mas que os dados tornam cada vez mais difícil de ignorar: as alterações climáticas não são um cenário a evitar, são uma realidade presente e mensurável. O sistema climático está em desequilíbrio crescente, e os indicadores disponíveis apontam todos na mesma direção.



