
Um workshop organizado pela Biodiversa+ em Oslo, nos dias 25 e 26 de fevereiro de 2025, reuniu cerca de 30 especialistas de diferentes áreas para analisar o papel das Soluções Baseadas na Natureza (SbN) na promoção de uma mudança transformadora, identificando prioridades de investigação e inovação para os próximos 25 anos.
O encontro fez parte do programa europeu de pesquisa sobre biodiversidade, alinhado com a Estratégia Europeia de Biodiversidade para 2030, que visa colocar a natureza europeia em trajetória de recuperação até 2050.
Horizonte de investigação: tendências e incertezas
Durante o workshop, os participantes realizaram uma Análise de Horizonte para mapear tendências globais, europeias, emergentes e potenciais “wild cards” [“eventos de rutura”] que podem influenciar a relação entre SbN e Tranformação Climática (TC). Entre os desafios identificados destacam-se:
- Desconexão entre sociedade e natureza e aumento da polarização social
- Mudanças climáticas e degradação de ecossistemas, incluindo aumento do nível do mar e riscos de desastres naturais
- Governança e confiança em ciência como fatores decisivos para o sucesso das SbN
- Sistemas económicos e valores sociais que influenciam a adoção de políticas verdes
Entre os conceitos emergentes, os especialistas apontaram para economias de natureza positiva, sistemas regenerativos e direitos da natureza, além de potenciais eventos disruptivos com impacto profundo, como crises ambientais e sociais.
Contextos socioecológicos
As discussões foram estruturadas em quatro contextos distintos: áreas urbanas, paisagens agrícolas, ecossistemas montanhosos e zonas costeiras, permitindo identificar desafios e soluções específicas:
- Urbanos: mitigação do calor urbano e gestão de águas pluviais, com SbN baseadas em infraestruturas verdes e azuis. Necessário monitoramento de longo prazo e integração de diferentes políticas municipais.
- Agrícolas: promoção de agricultura regenerativa e restauração de turfeiras, associada a pagamento por serviços ecossistémicos (PES) e valorização da produção local.
- Montanha: gestão de água, reintrodução de espécies-chave e à redução da intervenção humana e transição de propriedade para gestão responsável de ecossistemas; revisão de turismo e tradições culturais.
- Costeiras: proteção contra poluição, sobrepesca e riscos climáticos; avaliação da viabilidade económica de soluções naturais, incluindo enchentes controladas e margens fluviais.
Imagens do futuro
Os participantes desenvolveram cenários para 2050, construindo diferentes visões de futuro para a evolução das soluções baseadas na natureza.
Entre os cenários explorados, destaca-se a construção de uma economia orientada para a natureza, baseada na circularidade e na valorização dos serviços dos ecossistemas, bem como modelos de governação mais resilientes, com forte participação da sociedade civil e parcerias público-privadas.
Foi também sublinhada a importância de políticas integradas de uso do solo, que incorporem princípios de justiça intergeracional e equidade social.
Prioridades de investigação e inovação
O relatório do workshop sublinha oito áreas críticas para o futuro da pesquisa sobre SbN e TC:
- Frameworks e indicadores padronizados para avaliar SbN em diferentes contextos.
- Governança para uma economia de natureza positiva, incluindo integração de custos e benefícios reais de cuidados ambientais.
- Risco, desastres e resiliência, avaliando impactos de curto e longo prazo.
- Abordagem socioecológica, conectando práticas culturais, narrativas e comportamentos ao manejo da biodiversidade.
- Pesquisa de longo prazo sobre impactos das SbN.
- Uso de plataformas existentes (Biodiversa+, NetworkNature, Oppla) para integração de conhecimento.
- Necessidade de financiamento sustentável e de longo prazo para implementação de SbN.
- Ligação entre investigação e sociedade, promovendo co-criação, interdisciplinaridade e escalabilidade de soluções.
O workshop de Oslo reforça que as Soluções Baseadas na Natureza são essenciais para mudanças transformativas, mas só terão efeito se apoiadas por mudanças sistémicas profundas em governação, economia e valores culturais.
As recomendações do relatório serão integradas nos programas da Biodiversa+, incluindo BiodivNBS e BiodivTransform, reforçando a ligação entre ciência, política e prática para construir um futuro mais sustentável e resiliente.



