Financiamento climático: o que Bonn 2025 antecipa para a COP30 em Belém?

Financiamento climático: o que Bonn 2025 antecipa para a COP30 em Belém?

Na sessão de negociações climáticas realizada em junho de 2025 em Bonn (Alemanha), uma coligação de países em desenvolvimento, liderada pela Índia, conseguiu reabrir formalmente as discussões sobre a obrigação dos países desenvolvidos de fornecer (e não apenas mobilizar) recursos financeiros para apoiar a ação climática nos países mais vulneráveis. 

Do compromisso de “mobilizar” ao dever de “fornecer” 

No COP29 em Baku (2024), as nações desenvolvidas comprometeram-se a mobilizar pelo menos 300 mil milhões de dólares por ano a partir de 2035 para a ação climática. Trata-se de um valor três vezes superior ao atual, mas ainda muito aquém dos 1,3 triliões de dólares anuais que os países em desenvolvimento consideram necessários. Embora o artigo 9.3 do Acordo de Paris exija que os países desenvolvidos “lidarem com a mobilização” desses recursos, o artigo 9.1 estabelece também uma obrigação legal de fornecer financiamento “novo e adicional”. 

A proposta decisiva em Bonn 

  • Pedido do grupo LMDC 
    A Bolívia, em nome dos Like-Minded Developing Countries (LMDC), solicitou a criação de um novo ponto de agenda dedicado ao “cumprimento do artigo 9.1 do Acordo de Paris”, ou seja, a provisão efetiva de fundos pelos países desenvolvidos. 
  • Apoio amplo dos países do Sul 
    O G77 + China, a Alliance of Small Island States (AOSIS), os Países Menos Desenvolvidos (LDCs) e o Grupo Africano uniram-se ao apelo, sublinhando que a falta de cumprimento do artigo 9.1 mina a confiança e prejudica a ambição global . 
  • Resistência dos países desenvolvidos 
    A União Europeia, Suíça, Canadá, Austrália e Japão argumentaram que o tema já estaria coberto por fóruns existentes (Standing Committee on Finance, relatórios de transparência sob o Artigo 9.5, e o estabelecimento de metas financeiras conjuntas) e que adicionar um mecanismo independente poderia gerar duplicação e fragmentação dos esforços. 
  • Como resultado, a 17 de junho realizou-se uma “consulta formal” sobre o artigo 9.1. Um relatório desta consulta será apresentado no processo de preparação do COP30, marcado para dezembro de 2025 em Belém, Brasil. A expectativa é que, em Belém, seja aberto um fluxo de trabalho próprio para monitorar a implementação do artigo 9.1, um passo considerado por muitos países como fundamental para dar cumprimento ao mandamento da Convenção-Quadro de 1992 (artigo 4.3) de “fornecer novos e adicionais recursos”. 

Por que importa para as cidades: 

  • Maior confiança: os municípios dependem de financiamento estável para adaptar infraestruturas, melhorar a eficiência energética e proteger populações vulneráveis. 
  • Planeamento local: A clareza sobre obrigações de financiamento permite às autarquias integrar projetos de adaptação e mitigação com menor risco regulatório. 
  • Pressão multinível: Ao exigir cumprimento das obrigações internacionais, as cidades reforçam sua voz junto a governos nacionais e instrumentos de financiamento da União Europeia e do Banco Mundial. 

Fontes e leituras adicionais