A crise que une clima, natureza e poluição: novo estudo da OCDE mostra o que ainda temos de enfrentar até 2050 

Um novo estudo da OCDE lança um alerta contundente: as três grandes ameaças ambientais — alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição — não são crises separadas. São, na verdade, um único problema global, profundamente interligado, que continuará a agravar-se até meados do século se nada mudar. 

Environmental Outlook on the Triple Planetary Crisis analisa, com recurso a modelos integrados, como estas pressões vão evoluir e como políticas mais coordenadas podem travar uma dinâmica que ameaça ecossistemas, saúde pública e economias. 

Uma crise tripla empurrada pelo mesmo motor: como vivemos e produzimos 

De acordo com o relatório, a pressão ambiental do planeta continuará a aumentar não porque sejamos mais pessoas apenas, mas sobretudo por causa da forma como produzimos, consumimos energia, usamos recursos e gerimos solos

Entre os dados mais marcantes: 

  • A população mundial deve chegar a 9,6 mil milhões em 2050
  • A economia global deverá mais do que duplicar, de €108,3 biliões para €243,4 biliões . 
  • O uso global de recursos passará de 96 para 145 gigatoneladas, um aumento de cerca de 50%. 
  • A produção e utilização de plásticos mais do que duplicará
  • O uso de fertilizantes azotados aumentará mais de 40%

Apesar de alguns sinais de desacoplamento relativo — ou seja, certas pressões crescerem menos do que o PIB — a tendência é clara: continuaremos a pressionar mais o planeta do que este consegue suportar

Clima, biodiversidade e poluição: um círculo vicioso 

O estudo mostra que estas três crises alimentam-se mutuamente

  • As alterações climáticas ultrapassarão o uso do solo como principal motor de perda de biodiversidade até 2050. 
  • A perda de biodiversidade reduz a capacidade dos ecossistemas de absorver carbono e filtrar poluentes. 
  • O aumento da poluição — desde químicos tóxicos até microplásticos — agrava a degradação dos ecossistemas e compromete a saúde humana. 

O resultado: um ciclo de retroalimentação negativa, que amplifica riscos ambientais e económicos. 

Energia limpa: solução indispensável, mas não isenta de impactos 

A OCDE destaca que a transição energética é essencial, mas não automática. Sem planeamento, o crescimento das renováveis pode gerar novas pressões sobre habitats naturais, aumentar a procura por matérias-primas críticas e criar desafios de gestão de resíduos, como painéis solares ou pás eólicas no fim de vida. 

O desafio não é travar a transição, mas torná-la sustentável desde o início

Agricultura e alimentação: o sector onde mais se pode ganhar (ou perder) 

A agricultura continuará a ser um dos sectores com maior impacto ambiental, mas o relatório identifica oportunidades claras: 

  • Reduzir perdas e desperdício alimentar, que hoje representam cerca de um terço da produção global. 
  • Promover dietas mais sustentáveis, incluindo maior consumo de proteínas vegetais. 
  • Investir em investigação e inovação agrícola, com benefícios ambientais e económicos elevados. 

O que os governos ainda não estão a fazer e deveriam começar já 

Apesar de existirem pontos de contacto entre políticas climáticas, de biodiversidade e de poluição, a OCDE conclui que a maioria dos países continua a pensar cada problema em “silos”
O estudo propõe um roteiro de seis grandes mudanças

  1. Investir em investigação que integre estas três dimensões. 
  1. Alinhar planeamento e relatórios nacionais, garantindo coerência entre estratégias climáticas e de biodiversidade. 
  1. Reorientar financiamento público e privado para atividades que reduzam pressões ambientais. 
  1. Acelerar a transição energética sem criar impactos colaterais
  1. Transformar padrões de uso de recursos, promovendo maior circularidade. 
  1. Reinventar os sistemas alimentares, desde a produção ao consumo. 

Uma urgência que ainda pode ser transformada em oportunidade 

O grande aviso da OCDE é simples: tratar cada crise ambiental de forma isolada já não funciona. A abordagem tem de ser sistémica e integrada. 
Mas o relatório traz também uma mensagem de esperança: existem sinergias claras e um vasto conjunto de políticas que podem reduzir simultaneamente emissões, poluição e perda de biodiversidade, desde que adotadas com ambição e coerência. 

Estudo completo (OCDE, 2025): Environmental Outlook on the Triple Planetary Crisis