
Um estudo demonstra que a distância até aos pontos de recolha e o estilo da comunicação dirigida aos cidadãos têm impacto direto na participação em sistemas de devolução de resíduos perigosos, como as pilhas usadas. A investigação analisou o lançamento de um programa de recolha num município do norte de Itália e concluiu que tanto a acessibilidade das infraestruturas como a forma como os riscos ambientais são explicados condicionam o comportamento real dos consumidores.
Pilhas usadas: um problema pequeno no volume, grande no risco
Pilhas e baterias contêm substâncias tóxicas como mercúrio, ácidos e metais pesados. A sua deposição em lixo indiferenciado pode contaminar solos e água, representando riscos para ecossistemas e saúde pública. Garantir que os consumidores separam e entregam estes resíduos em locais adequados é, por isso, essencial para uma gestão segura e sustentável dos resíduos eletrónicos.
Até agora, grande parte dos estudos sobre reciclagem focava-se sobretudo em características individuais dos participantes, como perfil demográfico ou atitudes ambientais, e não tanto em fatores externos, como acessibilidade a pontos de entrega ou eficácia da comunicação. Esta investigação procurou colmatar essa lacuna, avaliando comportamentos reais e não apenas intenções declaradas.
A experiência: proximidade e mensagens diferentes para milhares de famílias
Em abril de 2022, o município italiano instalou novos contentores de recolha de pilhas e enviou uma carta informativa a todas as residências. Em colaboração com os investigadores, foram criadas duas versões da mesma carta, idênticas em todos os aspetos exceto na forma como explicavam o impacto ambiental de um descarte incorreto:
- Versão numérica: apresentava dados quantitativos — por exemplo, indicar que um grama de mercúrio pode contaminar mil litros de água.
- Versão metafórica: traduzia os mesmos valores em imagens do quotidiano — como “sete banheiras” ou “140 piscinas olímpicas”.
Cada carta incluía também um saco para depósito das pilhas e um código que permitia associar a devolução a cada agregado familiar.
Duas semanas após a instalação dos contentores, os sacos entregues foram recolhidos e atribuídos a cada residência, permitindo calcular um índice de participação entre 0% e 100%.
Resultados: mais perto, mais participação ( e as metáforas ajudam)
Foram recolhidos sacos identificados de 360 lares. As conclusões principais foram:
- A distância importa. Agregados situados até 5 km de um contentor apresentaram uma taxa média de entrega de 52%, enquanto os que viviam mais longe ficaram pelos 40%.
- A forma de comunicar também. Entre os lares mais próximos, aqueles que receberam a carta metafórica mostraram uma taxa de participação de 59%, comparada com 44% nos que receberam a versão numérica.
Estes resultados contrastam com estudos baseados apenas em inquéritos, que por vezes mostravam efeitos inconsistentes da distância. Aqui, ao medir comportamento real, os investigadores confirmaram que proximidade física é um fator decisivo.
Além disso, a eficácia das metáforas sugere que tornar os impactos ambientais mais tangíveis, através de imagens facilmente compreendidas, pode aumentar significativamente a adesão dos consumidores.
Implicações para políticas de reciclagem
Os autores defendem que, para além de ações de sensibilização, é essencial garantir uma rede de recolha acessível e bem distribuída, sublinhando ainda que o estilo da comunicação, especialmente quando traduz dados complexos para conceitos familiares, pode influenciar comportamentos de forma mensurável.
O estudo também reconhece limites: metáforas podem ser menos eficazes quando se tratam de magnitudes mais familiares para o público, e em localidades onde os pontos de recolha já estão colocados em locais de passagem diária, a distância pode ter menor relevância. Estes aspetos, segundo os autores, merecem investigação futura.



