
A transição energética é hoje um elemento central das políticas climáticas europeias e um fator decisivo para alcançar a neutralidade climática, em particular nos territórios urbanos. O relatório Energy Transition – Flash Eurobarometer 566 contribui para este debate ao analisar não apenas a evolução dos sistemas energéticos, mas sobretudo a forma como os cidadãos vivenciam a transição energética no seu quotidiano, enquanto consumidores, decisores nos seus lares e utilizadores de serviços essenciais.
O inquérito, realizado junto de cidadãos da União Europeia envolvidos nas decisões energéticas dos seus agregados familiares, avalia níveis de confiança nos mercados e fornecedores de energia, a satisfação com os serviços, a compreensão das faturas, os comportamentos de consumo e os fatores que influenciam a escolha ou a mudança de fornecedor. As conclusões revelam que o sucesso da transição energética depende tanto de soluções tecnológicas como da justiça social, da clareza da informação e da capacitação dos consumidores.
Avanços tecnológicos e um fosso na perceção dos consumidores
O relatório confirma que a transição energética está tecnicamente em curso, com um crescimento significativo das energias renováveis e uma maior diversificação das fontes de energia. No entanto, este progresso nem sempre se reflete na perceção dos cidadãos. Apenas cerca de um terço dos inquiridos considera que o seu fornecedor investe suficientemente em energias renováveis, o que evidencia um fosso entre os avanços estruturais do sistema energético e a experiência concreta dos consumidores.
Esta desconexão sublinha a importância da comunicação, da transparência e da proximidade, áreas onde as cidades podem desempenhar um papel determinante, traduzindo objetivos climáticos globais em benefícios locais tangíveis.
Proteger consumidores vulneráveis: a principal prioridade europeia
A principal preocupação expressa pelos cidadãos europeus prende-se com a proteção dos consumidores vulneráveis e das pessoas em situação de pobreza energética. Quando questionados sobre as áreas que mais necessitam de melhoria no setor energético, 38% dos inquiridos colocam esta questão no topo das prioridades.
Este dado é particularmente relevante para as cidades, onde se concentram desigualdades sociais, edifícios energeticamente ineficientes e populações mais expostas ao aumento dos custos da energia. A transição energética, para ser bem-sucedida, tem de ser também uma transição justa, integrando políticas de eficiência energética, reabilitação urbana e apoio social dirigidas aos agregados mais vulneráveis.
Transparência, confiança e compreensão das faturas energéticas
A falta de clareza na informação energética surge como outro obstáculo estrutural. Apenas um terço dos cidadãos afirma compreender totalmente a sua fatura de energia, enquanto mais de um terço tem dificuldades em perceber impostos e encargos associados à manutenção das infraestruturas. Outros elementos — como o custo por unidade de energia, o cálculo do valor total a pagar ou as condições contratuais — são também apontados como difíceis de entender por uma parte significativa dos consumidores.
Não surpreende, por isso, que 34% dos inquiridos identifiquem a necessidade de maior clareza e transparência das faturas como uma prioridade, a par do reforço da prevenção de práticas comerciais desleais, como o telemarketing agressivo.
Para os municípios, estes resultados reforçam a importância de iniciativas locais de literacia energética, serviços de apoio ao consumidor e plataformas de informação acessível que ajudem os cidadãos a compreender e gerir melhor o seu consumo.
Barreiras à mudança de fornecedor e à redução das faturas
Apesar da liberalização do mercado energético, a mobilidade dos consumidores continua limitada. Apenas 38% dos cidadãos mudaram de fornecedor de eletricidade nos últimos três anos, e apenas 33% trocaram de fornecedor de gás.
As principais barreiras à mudança incluem:
- a perceção de que não existem diferenças relevantes entre fornecedores (26%);
- a dificuldade em comparar ofertas (15%);
- a ideia de que o processo é demasiado complexo ou moroso (13%);
- e receios relacionados com interrupções do serviço ou problemas técnicos (10%).
Curiosamente, o motivo mais frequente para não mudar de fornecedor é a satisfação com a fiabilidade, o serviço e o preço do fornecedor atual (52%). Estes dados mostram que a transição energética não depende apenas do preço, mas também da confiança, da qualidade do serviço e da simplicidade dos processos.
O que valorizam os cidadãos na escolha de fornecedores de energia
Para além do preço, os cidadãos europeus valorizam sobretudo a qualidade do serviço e a reputação do fornecedor. Mais de um terço dos que mudaram recentemente de fornecedor e mais de metade dos que não mudaram indicam estes fatores como decisivos. Cerca de três em cada dez consumidores consideram importante a utilização de fontes de energia sustentáveis, o que demonstra um potencial relevante para soluções locais baseadas em renováveis, comunidades de energia e produção descentralizada.
O papel estratégico das cidades na transição energética
Os resultados do relatório reforçam o papel central das cidades enquanto espaços de implementação concreta da transição energética. É ao nível local que se cruzam políticas climáticas, mercados de energia e necessidades sociais. As cidades estão particularmente bem posicionadas para:
- apoiar consumidores vulneráveis;
- promover a eficiência energética nos edifícios;
- facilitar o acesso a dados e ferramentas digitais de monitorização do consumo;
- e fomentar modelos participativos, como comunidades de energia renovável.
Implicações para a ação climática local
As conclusões do relatório reforçam a relevância de iniciativas como a Cidades pelo Clima, enquanto plataforma de cooperação entre municípios comprometidos com a neutralidade climática. A evidência apresentada aponta para a necessidade de acelerar a ação local, reforçar capacidades técnicas e políticas ao nível municipal e garantir que a transição energética é percebida pelos cidadãos como justa, transparente e benéfica.
Num contexto de urgência climática e pressão social crescente, o relatório deixa uma mensagem clara: a transição energética não se faz apenas com renováveis e metas de emissões, mas com confiança, proteção social, informação clara e envolvimento ativo dos cidadãos, colocando as cidades no centro desta transformação.



