Portugueses emitem três vezes mais CO₂ do que a meta climática

A ação climática exige metas claras, políticas públicas eficazes e tecnologias adequadas. Mas exige também algo frequentemente menos visível: a capacidade de compreender e transformar os estilos de vida dos cidadãos. Em Portugal, o projeto europeu PSLifestyle – Positive and Sustainable Lifestyle oferece uma base empírica sólida para essa reflexão, ao quantificar impactos reais e identificar barreiras concretas à mudança de comportamentos. 

Um dos indicadores mais expressivos do projeto é a pegada média de carbono registada em Portugal: 8 695 kgCO₂e por pessoa por ano, um valor mais de três vezes superior à meta de 2 500 kgCO₂e/pessoa/ano necessária para cumprir o Acordo de Paris e limitar o aquecimento global a 1,5 °C. 

Este KPI sintetiza a dimensão do desafio e reforça a necessidade de uma abordagem integrada, onde políticas locais, capacitação dos cidadãos e justiça social caminhem em conjunto. 

O papel da DECO: coordenação, capacitação e ligação aos territórios 

Em Portugal, o PSLifestyle foi coordenado e implementado pela DECO – Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor, enquanto parceira nacional do consórcio europeu financiado pelo programa Horizonte Europa. O envolvimento da DECO foi central em várias dimensões do projeto, assegurando a ligação entre conhecimento científico, cidadãos e decisores públicos

A DECO foi responsável, por exemplo, por adaptar o LifestyleTest à realidade portuguesa, incorporando dados nacionais, linguagem acessível e opções relevantes para o contexto local; dinamizar processos participativos, como os Laboratórios Vivos, envolvendo cidadãos na melhoria da ferramenta ou liderar a estratégia de divulgação, literacia climática e capacitação, através de workshops, eventos, escolas, empresas e redes sociais; 

Mais de 14 000 testes: interesse dos cidadãos, desafios persistentes 

Entre 2023 e 2025, foram realizados mais de 14 000 LifestyleTests em Portugal, refletindo um elevado interesse dos cidadãos em conhecer o seu impacto ambiental. No entanto, os resultados mostram que a distância entre consciência e transformação estrutural continua significativa. 

A análise setorial da pegada média revela onde se concentram os maiores impactos: 

  • Transportes: 4 331 kgCO₂e/pessoa/ano 
  • Alimentação: 2 442 kgCO₂e/pessoa/ano 
  • Compras: 1 162 kgCO₂e/pessoa/ano 
  • Casa: 759 kgCO₂e/pessoa/ano 

O setor dos transportes destaca-se como o principal fator de impacto, fortemente associado ao uso diário do automóvel e às viagens aéreas, revelando limitações estruturais que ultrapassam a esfera da decisão individual. 

Da medição à ação: intenções elevadas, execução limitada 

O LifestyleTest não se limita ao diagnóstico. A ferramenta permite criar planos personalizados de ação. Em Portugal, foram desenvolvidos mais de 1 100 planos, com um total de 7 880 ações selecionadas pelos utilizadores. No entanto, apenas 123 ações foram registadas como concluídas na plataforma. 

As ações mais comuns são de baixo custo e facilmente integráveis no quotidiano, como secar a roupa ao ar livre ou separar resíduos para reciclagem. 

Já mudanças com maior impacto estrutural, nomeadamente no padrão alimentar ou na mobilidade, são frequentemente rejeitadas, sendo apontadas como incompatíveis com o estilo de vidademasiado dispendiosas ou inviáveis no local de residência

Barreiras estruturais e responsabilidade coletiva 

Os dados do PSLifestyle mostram de forma clara que os obstáculos à adoção de estilos de vida sustentáveis não são apenas comportamentais. Entre as principais barreiras identificadas estão os custos financeiros; afalta de oferta local, sobretudo fora dos grandes centros urbanos; a insuficiência de alternativas ao automóvel e défices de informação clara e contextualizada. 

Estas conclusões reforçam que a transição não pode ser colocada exclusivamente sobre os ombros dos cidadãos, exigindo políticas públicas coerentes, particularmente ao nível municipal. 

Implicações para as cidades e para a ação climática local 

Para as cidades, o KPI dos 8 695 kgCO₂e/pessoa/ano é um alerta inequívoco. A redução desta pegada depende de decisões estruturais sobre mobilidade, habitação, planeamento urbano, acesso a bens e serviços e capacitação dos cidadãos. 

O trabalho desenvolvido pela DECO no âmbito do PSLifestyle demonstra que dados, participação e proximidade territorial são ferramentas essenciais para apoiar essa transformação. Iniciativas como a Cidades pelo Clima têm aqui um papel estratégico, ao criar condições para que os municípios utilizem evidência empírica, promovam soluções locais e garantam que a transição climática é socialmente justa e exequível. 

O PSLifestyle mostra que os cidadãos querem agir. Cabe agora às políticas locais garantir que essa vontade se traduz em mudanças reais, mensuráveis e duradouras. 

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