Portugal está no top 5 da União Europeia na incorporação de energias renováveis nos transportes

Apesar dos progressos registados no setor elétrico, a transição energética nos transportes na União Europeia continua a avançar a um ritmo lento. Em 2024, as fontes de energia renovável representaram 11,2% da energia utilizada nos transportes, segundo os dados mais recentes do Eurostat. Trata-se de um aumento marginal de 0,2 pontos percentuais face a 2023 e de um valor ainda distante da meta europeia de 29% até 2030

Quando a série estatística começou, em 2004, a quota de renováveis nos transportes era de apenas 1,4%. O crescimento ao longo de duas décadas é evidente, mas insuficiente face à urgência climática e à centralidade do setor dos transportes nas emissões de gases com efeito de estufa na UE. 

Um fosso significativo face às metas para 2030 

O valor registado em 2024 está 17,8 pontos percentuais abaixo do objetivo europeu para o final da década. Este desfasamento evidencia a dificuldade estrutural em descarbonizar um setor ainda fortemente dependente de combustíveis fósseis, em particular nos transportes rodoviários, responsáveis pela maior fatia do consumo energético. 

A legislação europeia prevê uma alternativa à meta de incorporação direta de renováveis: os Estados-Membros podem optar por reduzir em 14,5% a intensidade de gases com efeito de estufa dos combustíveis de transporte até 2030. Ainda assim, ambas as vias exigem mudanças profundas nos sistemas de mobilidade, na oferta energética e no comportamento dos consumidores. 

Países líderes e contrastes acentuados 

Os dados revelam uma União Europeia a várias velocidades. A Suécia lidera, com 26,4% da energia usada nos transportes proveniente de fontes renováveis, seguida da Finlândia (20,3%) e dos Países Baixos (19,7%). Estes países beneficiam de políticas públicas consistentes, elevada incorporação de biocombustíveis sustentáveis e maior penetração da eletrificação no transporte rodoviário e ferroviário. 

Portugal destaca-se positivamente quando se olha para este indicador europeu. Segundo dados disponíveis para 2024, a participação de energias renováveis no setor dos transportes em Portugal foi de cerca de 14,3 %, bem acima da média europeia de 11,2 % e colocando o país entre os cinco Estados-membros com maior quota de renováveis neste setor.  

Este desempenho coloca Portugal à frente de muitos países europeus e reflete progressos em áreas como a incorporação de biocombustíveis sustentáveis, o aumento do uso de eletricidade renovável (por exemplo em veículos elétricos) e políticas de incentivo mais ambiciosas do que a média da UE.  

No extremo oposto, surgem Croácia (0,9%)Grécia (3,9%) e Chéquia (5,7%), com valores muito abaixo da média europeia. As diferenças refletem desigualdades estruturais, opções políticas distintas e ritmos variados de investimento em alternativas aos combustíveis fósseis. 

Avanços rápidos, mas também recuos inesperados 

Entre 2023 e 2024, 19 Estados-Membros aumentaram a utilização de energias renováveis nos transportes. Os maiores crescimentos registaram-se na Letónia (+7,4 pp) e nos Países Baixos (+6,2 pp), demonstrando que progressos rápidos são possíveis quando existem enquadramentos regulatórios e económicos favoráveis. 

Em contraciclo, a Suécia, que em 2023 era o único país a ultrapassar a meta de 29%, com 33,6%, registou em 2024 a maior descida da UE (-7,2 pp). Outras reduções foram mais moderadas, variando entre -0,1 e -0,8 pontos percentuais. Estes recuos mostram que os ganhos não são irreversíveis e que mudanças em políticas fiscais, preços ou critérios de sustentabilidade podem ter impactos imediatos. 

Que renováveis estão a contar nos transportes? 

A energia renovável utilizada nos transportes inclui sobretudo: 

  • biocombustíveis líquidos, como o biodiesel, desde que cumpram critérios de sustentabilidade; 
  • biometano, usado sobretudo no transporte pesado; 
  • e uma parcela ainda limitada de eletricidade renovável, maioritariamente nos transportes rodoviário e ferroviário. 

Apesar do crescimento dos veículos elétricos, a eletrificação ainda representa uma fração reduzida do consumo energético total do setor, o que ajuda a explicar a lentidão da transição. 

Um desafio central para cidades e políticas públicas 

O setor dos transportes continua a ser um dos principais obstáculos ao cumprimento das metas climáticas europeias. Para as cidades, onde se concentra grande parte da mobilidade diária, estes dados reforçam a necessidade de acelerar políticas de transporte público, mobilidade ativa, eletrificação de frotas e planeamento urbano orientado para a redução da dependência do automóvel. 

Sem uma transformação profunda da mobilidade, a transição energética europeia ficará incompleta. A próxima década será decisiva para alinhar o setor dos transportes com o ritmo já alcançado na eletricidade e para garantir benefícios climáticos, económicos e sociais duradouros.