Quanto custa preparar Portugal e a Europa para se adaptarem às alterações climáticas? 

As alterações climáticas já não pertencem ao futuro. Estão a acontecer agora, com tempestades violentas, ondas de calor mais intensas, secas prolongadas, cheias repentinas, incêndios florestais e a subida do nível do mar a afetarem cidades, campos, empresas e ecossistemas em toda a Europa, nomeadamente em Portugal com enorme gravidade. A pergunta deixou de ser se a Europa precisa de se adaptar — a verdadeira questão é quanto custa não o fazer

Foi para responder a este desafio que a Comissão Europeia encomendou um dos mais completos estudos alguma vez realizados sobre adaptação climática. Publicado em janeiro de 2026, o relatório Assessment of EU and Member States Adaptation Investment Needs procurou medir, com base em dados reais de cada país, o esforço financeiro necessário para proteger a União Europeia dos impactos do aquecimento global. 

Até agora, as estimativas disponíveis variavam enormemente, indo de algumas dezenas a várias centenas de milhares de milhões de euros por ano. Essa incerteza dificultava decisões políticas e investimentos de longo prazo. O novo estudo tentou ultrapassar esse problema partindo da realidade concreta de cada Estado-Membro: que riscos enfrenta, que setores estão mais expostos e que medidas já estão previstas para responder a esses riscos. 

Um estudo abrangente 

A análise abrangeu os 27 países da União Europeia e concentrou-se em cinco grandes áreas: infraestruturas, saúde, ecossistemas, alimentação e economia. A estas juntaram-se medidas transversais, como investigação, inovação, educação e sensibilização, consideradas essenciais para criar uma sociedade mais resiliente. 

O ponto de partida foi um levantamento de mais de 1.700 riscos climáticos identificados em relatórios oficiais dos próprios países. Esses riscos foram depois harmonizados segundo um quadro europeu comum, permitindo comparações entre Estados-Membros. Em seguida, os investigadores reuniram e organizaram centenas de soluções de adaptação, desde a proteção de zonas costeiras e o reforço de edifícios, até à restauração de florestas, criação de corredores verdes nas cidades, planos de emergência, seguros climáticos e sistemas de alerta precoce. 

Para saber quanto tudo isto poderia custar, a equipa recorreu a mais de 60 fontes diferentes, incluindo planos nacionais, estudos científicos e projetos europeus. Os valores foram ajustados para permitir comparações entre países de diferentes dimensões e níveis de risco, e projetados para o período entre 2021 e 2050. 

Os resultados mostram um retrato preocupante. A maioria dos riscos identificados é classificada como grave ou muito grave, sobretudo nos setores das infraestruturas e dos ecossistemas, que concentram mais de metade dos impactos potenciais. No sul da Europa, dominam o calor extremo, a escassez de água e os incêndios florestais. No centro e leste, as perdas agrícolas e os problemas hídricos são centrais. No Oeste, destacam-se as cheias, os danos em infraestruturas e os efeitos na saúde. No Norte, embora a severidade média seja menor, surgem riscos crescentes para a pesca, a biodiversidade e as zonas costeiras. 

O caso português 

De acordo com este estudo, Portugal terá de investir, em média, 1.667 milhões de euros por ano até 2050 para conseguir proteger-se dos impactos das alterações climáticas. Este montante corresponde a cerca de 0,5% do PIB nacional, enquanto a média da União Europeia se fica pelos 0,46%. Embora Portugal não esteja entre os países com maiores valores absolutos, o peso do investimento na economia nacional é mais elevado do que em economias muito maiores, como a alemã, a francesa ou a espanhola. 

No total, o custo acumulado para o país até 2050 é estimado em 29,4 mil milhões de euros, em valores atualizados. A maior fatia do investimento deverá ser canalizada para a proteção dos ecossistemas e das infraestruturas, dois setores particularmente expostos aos efeitos do aquecimento global. 

Segundo o estudo, cerca de 9,6 mil milhões de euros serão necessários para restaurar e proteger ecossistemas — como florestas, solos, zonas costeiras e recursos hídricos — enquanto 9 mil milhões de euros terão de ser aplicados na adaptação de infraestruturas, incluindo redes de água, estradas, edifícios e sistemas de energia. A agricultura e o sistema alimentar representam outro bloco significativo, com 7,7 mil milhões de euros, seguidos da saúde, com quase 3 mil milhões. A área económica e financeira surge com valores mais baixos, embora os autores alertem que este setor tende a estar subavaliado. 

O relatório sublinha que Portugal está entre os países que mais veem os seus custos aumentar quando os cenários de risco climático se tornam mais severos. Nos cenários de maior exposição o investimento necessário para o país cresce mais de 40%, refletindo o peso de riscos considerados críticos, como as secas prolongadas, os incêndios florestais, a escassez de água e as quebras na produção agrícola

Este retrato coloca Portugal numa posição de particular vulnerabilidade dentro da União Europeia. Os investigadores concluem que adiar a adaptação aumentará significativamente os custos futuros, tanto em danos económicos como em impactos sociais e ambientais. 

Medidas propostas 

Uma das mensagens mais fortes do relatório é que a adaptação não passa apenas por grandes obras de engenharia. Claro que diques, barreiras e sistemas de drenagem continuarão a ser necessários. Mas soluções baseadas na natureza, como zonas húmidas, florestas e espaços verdes urbanos, revelam-se igualmente importantes. A isto somam-se medidas sociais e institucionais: melhor planeamento, regras de construção mais exigentes, educação, informação pública e sistemas de alerta. Muitas destas ações são chamadas de “no-regret”, porque trazem benefícios mesmo que os impactos climáticos sejam menos severos do que o esperado. 

O estudo também expõe uma fragilidade importante: os dados ainda são muito desiguais entre países. Cada Estado usa métodos diferentes para avaliar riscos e custos, o que dificulta a comparação. Por isso, os autores defendem a criação de um sistema europeu mais harmonizado, que permita decisões mais rápidas e eficazes. 

Apesar das incertezas, uma conclusão é clara. Os custos da inação serão muito superiores aos custos da adaptação. Em setores como cheias, energia, saúde ou agricultura, cada euro investido hoje pode evitar vários euros em prejuízos amanhã. Quanto mais cedo a Europa investir na sua resiliência, menores serão os danos num clima que já mudou e continuará a mudar.