
A transição climática é muitas vezes apresentada como um custo inevitável para a indústria. Mas um novo estudo coordenado pela NOVA SBE, com o apoio da REGA Energy, defende exatamente o contrário: produzir de forma sustentável pode ser uma das maiores oportunidades económicas para Portugal nas próximas décadas.
Intitulado A Oportunidade Industrial Verde em Portugal, o relatório sustenta que a certificação ambiental é a chave para transformar os custos da descarbonização numa vantagem competitiva real e mensurável. A conclusão resulta de uma análise económica detalhada, que combina revisão de literatura científica internacional com modelação macroeconómica aplicada à realidade portuguesa.
Num mundo em rápida transformação, marcado por tensões geopolíticas, relocalização de cadeias de valor e critérios ambientais cada vez mais exigentes, a forma como os produtos são avaliados no mercado está a mudar. Já não basta ser barato ou eficiente: é preciso provar que se produz de forma sustentável. E é aqui que Portugal pode ganhar terreno.
Os consumidores estão dispostos a pagar mais
Um dos mitos mais persistentes na indústria é o de que os clientes não pagam por sustentabilidade. O estudo desmonta esta ideia com dados. A revisão de dezenas de estudos internacionais mostra que produtos com certificação ambiental obtêm prémios de preço entre 5% e 17%. Em alguns setores, como o imobiliário sustentável, essa valorização pode chegar aos 30%.
Um dos exemplos mais claros vem da Amazon. Uma análise a cerca de 45 mil produtos certificados com o selo Climate Pledge Friendly revelou aumentos significativos nas vendas, tanto em valor como em volume. Ou seja, quando a informação é credível e comparável, os consumidores escolhem, e pagam, por produtos mais sustentáveis.
A chave está precisamente aí: sem certificação independente, o mercado não consegue distinguir quem investe em sustentabilidade de quem apenas o afirma. A certificação quebra essa assimetria e cria valor.
Um impacto económico relevante
Para medir o potencial desta transição, os investigadores simularam aumentos de vendas nos setores industriais que fazem parte do regime europeu de comércio de licenças de emissão (CELE), como os produtos químicos, metalurgia e minerais não metálicos.
Num cenário em que as vendas destes setores crescem 25%, seja por aumento de preço ou de volume, o impacto seria expressivo: mais 1,96 mil milhões de euros de PIB, o equivalente a 0,8% da economia nacional, e cerca de 49 mil novos empregos. A receita fiscal também cresceria de forma significativa.
Estes números mostram que a sustentabilidade não é apenas uma resposta ambiental, mas uma estratégia de crescimento económico.
Porque Portugal está bem posicionado
O estudo identifica várias vantagens estruturais que colocam Portugal numa posição privilegiada para liderar esta transição. O país dispõe de uma matriz elétrica maioritariamente renovável, um sistema funcional de Garantias de Origem, mão de obra qualificada a custos competitivos e uma infraestrutura crescente de certificação ambiental.
Além disso, a integração no mercado único europeu e a proximidade a mercados com elevada procura por produtos sustentáveis reforçam o potencial exportador. Num contexto em que mecanismos como o Mecanismo de Ajustamento Carbónico Fronteiriço (MACF), e os critérios ESG (Ambiental, Social e Governança) ganham peso, estas vantagens tornam-se ainda mais relevantes.
A principal recomendação do estudo é a criação de um selo nacional de certificação — “Made in Portugal, Made Sustainable” — que funcione como prova credível da pegada ambiental reduzida dos produtos portugueses. Este selo permitiria à indústria aceder a segmentos de maior valor, diferenciando-se nos mercados internacionais.
Segundo os autores, as Garantias de Origem criam o mercado; a certificação cria o valor. Sem prova independente, não há prémio. Com certificação, surgem diferenciação, preferência comercial e margens mais elevadas.
Uma mudança de paradigma
A conclusão do estudo é clara: a transição verde não tem de ser um fardo para a indústria portuguesa. Pelo contrário, pode ser o caminho para subir na cadeia de valor, reforçar a competitividade externa e gerar crescimento económico sustentável.
Num mundo onde os critérios ambientais estão a tornar-se regra, Portugal tem a oportunidade de transformar a sustentabilidade numa marca de excelência — e numa nova alavanca para a sua economia.



