Estudo finlandês revela porque as soluções baseadas na natureza ainda não são a norma nas cidades e o que é preciso mudar

Soluções baseadas na natureza

Um novo estudo, Developing business ecosystems around urban nature-based solutions: Evidence from Finland, publicado na revista científica Urban Forestry & Urban Greening investigou por que razão as soluções baseadas na natureza (SbN), como telhados verdes, fachadas vegetadas, bacias de retenção, corredores ecológicos, continuam a ser exceção, e não regra, no desenvolvimento urbano, mesmo em cidades reconhecidas como pioneiras na transição climática europeia. 

A investigação, conduzida por uma equipa da Universidade de Helsínquia e do Instituto Finlandês de Recursos Naturais (Luke), analisou os casos de Helsínquia e Turku, ambas membros da Missão da UE para a Missão Cidades e ambas com objetivos de neutralidade climática até 2030, antecipando a meta nacional finlandesa de 2035. 

Um ecossistema com muitos atores, mas sem líder claro 

Com base em entrevistas e workshops realizados junto de 21 especialistas — entre representantes camarários, arquitetos, promotores imobiliários e investigadores —, o estudo mapeou a estrutura do que os autores chamam de “ecossistema de negócio” em torno das SbN. Este ecossistema inclui quatro grandes grupos: as próprias câmaras municipais, o setor da construção, atores especializados em SbN (empreiteiros de espaços verdes, fornecedores, arquitetos paisagistas) e os utilizadores finais, ou seja, residentes e proprietários. 

A conclusão central é que a cidade emerge como o ator mais determinante, podendo desempenhar múltiplos papéis simultaneamente, desde criar uma plataforma para o desenvolvimento de negócios em torno das SbN, até atuar como cliente de novas soluções ou como intermediária de conhecimento junto dos residentes. Ainda assim, nenhum ator assume de forma automática ou sistemática o papel de líder ou “campeão” do processo. Essa função acaba, muitas vezes, a cargo de indivíduos isolados dentro das organizações, e não de uma estratégia coordenada. 

Os benefícios são reconhecidos, mas não suficientes 

Os especialistas ouvidos identificaram benefícios em três grandes categorias: ambientais (maior resiliência a ondas de calor e inundações, reforço da biodiversidade urbana), económicos (redução de custos a longo prazo, eficiência energética, valorização imobiliária) e sociais (bem-estar dos residentes, sentido de comunidade, ligação à natureza). 

No entanto, o reconhecimento destes benefícios não se traduz automaticamente em adoção generalizada. O estudo identifica seis grandes categorias de barreiras: custos de construção mais elevados, processos de contratação pública desajustados às SbN, mentalidade compartimentada dentro das próprias câmaras municipais, falta de conhecimento sobre manutenção a longo prazo, desvalorização das SbN face a soluções convencionais, e um ecossistema empresarial ainda fragmentado, sem empresas verdadeiramente pioneiras a puxar pelo setor. 

Sete caminhos possíveis 

Este estudo procura também soluções. Os autores apontam sete eixos de ação: instrumentos económicos e financeiros; instrumentos de política urbana (como fatores de biodiversidade obrigatórios em planos de ordenamento); repensar estruturas e espaços já existentes; cooperação multissetorial mais estreita; partilha de conhecimento e exemplos práticos; espaço para experimentação e projetos-piloto; e planeamento de longo prazo com metas claras e estáveis. 

Um dos instrumentos já testados em Helsínquia — o “fator verde”, uma ferramenta que obriga a um mínimo de vegetação e superfície permeável por lote urbano — é apontado como exemplo de como a regulação pode facilitar, e não travar, a cooperação entre atores públicos e privados. 

O que fica por resolver 

O estudo reconhece limitações: baseia-se em apenas duas cidades finlandesas e exclui, por opção metodológica, a perspetiva direta dos residentes, focando-se antes na relação entre câmaras e setor empresarial. Os dados foram recolhidos em 2023, num campo que os próprios autores descrevem como estando em rápida evolução. 

Ainda assim, concluiu que o sucesso ou fracasso da integração das soluções baseadas na natureza nas cidades depende, em última análise, da qualidade da interação entre municípios e setor empresarial e não apenas da vontade política ou da disponibilidade técnica das próprias soluções. 

Leia o estudo na íntegra aqui