Setor ambiental ganha peso na economia portuguesa, mas crescimento abranda em 2023 

Os dados mais recentes das Contas do Setor dos Bens e Serviços Ambientais (2020–2023), divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, mostram que o setor ambiental continua a ganhar relevância na economia portuguesa, representando 3,8% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) e 4,5% do emprego nacional em 2023

Apesar deste crescimento, o relatório revela também sinais de abrandamento e desafios estruturais, especialmente quando se exclui o impacto dos edifícios energeticamente eficientes. 

Um setor em crescimento, mas com nuances 

Em 2023, o setor dos bens e serviços ambientais representou: 

  • 5,8% da produção nacional 
  • 3,8% do VAB 
  • 4,5% do emprego 
  • 4,3% das exportações 

Estes números confirmam a crescente importância económica das atividades ligadas à sustentabilidade, incluindo energias renováveis, gestão de resíduos e eficiência energética. 

No entanto, o crescimento registado nos últimos anos foi fortemente influenciado pela inclusão dos edifícios com necessidades quase nulas de energia (NZEB), obrigatórios desde 2021. Sem este contributo, o desempenho do setor teria sido mais moderado e, em alguns casos, inferior ao da economia nacional. 

Eficiência energética lidera o setor 

Entre as diferentes áreas, destacam-se claramente as atividades de poupança e gestão de energia, que representaram 33% do VAB do setor e 44,7% do emprego. Este crescimento foi impulsionado sobretudo pela construção e renovação de edifícios energeticamente eficientes, refletindo a importância crescente da eficiência energética na economia. 

Seguem-se as energias renováveis (17,8% do VAB) e a gestão de resíduos (10,5%). 

Ainda assim, o relatório aponta uma queda no VAB das atividades de energias renováveis em 2023 (-13,1%), influenciada pela descida dos preços da energia. 

Emprego cresce, mas produtividade fica abaixo da média 

O setor ambiental continua a ganhar peso no emprego, passando de 4,0% em 2022 para 4,5% em 2023. No entanto, a produtividade mantém-se inferior à média da economia nacional e também ao contexto europeu. Em Portugal, o setor registou cerca de 39 mil euros por trabalhador, abaixo dos 45 mil euros da média da economia e distante da média da União Europeia, estimada entre 50 e 55 mil euros por trabalhador

Esta diferença resulta, em grande parte, do peso de atividades intensivas em mão de obra, como a construção de edifícios energeticamente eficientes, mas também da estrutura do setor, ainda pouco intensiva em capital e tecnologia. Além disso, a presença de atividades reguladas, como a gestão de resíduos, tende a limitar o valor acrescentado gerado por trabalhador. 

Embora este perfil contribua para a criação de emprego, também evidencia uma fase de maturação do setor, com margem para ganhos futuros de eficiência, inovação e escala. 

Exportações em crescimento e destaque europeu 

As exportações de bens e serviços ambientais cresceram e representaram 4,3% do total nacional em 2023. Portugal destacou-se ainda no contexto europeu, ocupando a 5.ª posição entre os Estados-Membros com maior peso destas exportações (8,2%). 

O crescimento foi particularmente impulsionado por equipamentos para energias renováveis (eólico e solar) e bicicletas e autocarros elétricos 

O papel dos edifícios eficientes (NZEB) 

Um dos elementos centrais do relatório é o impacto dos edifícios com necessidades quase nulas de energia (NZEB), obrigatórios para novas construções desde 2021. 

Estes edifícios: 

  • Reduzem significativamente o consumo energético 
  • Representam uma parte crescente da atividade económica 
  • Influenciam fortemente os indicadores do setor 

Contudo, a sua introdução dificulta comparações ao longo do tempo e entre países, já que a implementação não foi uniforme na União Europeia. 

Conclusão 

O setor dos bens e serviços ambientais está a consolidar-se como um pilar relevante da economia portuguesa, impulsionado pela transição energética e pelas exigências regulatórias europeias. 

No entanto, o relatório do INE mostra que este crescimento ainda depende de fatores específicos, como os edifícios eficientes, e enfrenta desafios ao nível da produtividade e da sustentabilidade do crescimento. 

O futuro do setor passará por equilibrar expansão económica com inovação, eficiência e diversificação das atividades ambientais. 

Consulte o relatório completo do INE aqui