Aquecimento global está a intensificar-se a um ritmo superior ao esperado 

Um novo estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters confirma, com mais de 98% de confiança estatística, que o ritmo do aquecimento global aumentou significativamente desde 2015. 

Durante décadas, o aumento da temperatura média da Terra manteve-se relativamente estável, a cerca de 0,2°C por década desde os anos 1970. Mas os recordes de temperatura registados em 2023 e 2024 reacenderam um debate na comunidade científica: o aquecimento estará a acelerar? A resposta, agora com evidência estatística robusta, é sim. 

O estudo Global Warming Has Accelerated Significantly, assinado pelos investigadores G. Foster e S. Rahmstorf e publicado em março de 2026, utilizou cinco conjuntos de dados de temperatura global — da NASA, NOAA, Hadley Centre, Berkeley Earth e ERA5 — e aplicou uma metodologia que subtrai o efeito de três fatores de variabilidade natural: o fenómeno El Niño, as erupções vulcânicas e as variações da atividade solar. Ao “limpar” estes ruídos dos dados, os investigadores conseguiram isolar o sinal do aquecimento induzido pela ação humana com muito maior precisão. 

O que dizem os números 

Os resultados são inequívocos: após o ajuste dos dados, todos os cinco conjuntos confirmam uma aceleração estatisticamente significativa do aquecimento, com um ponto de mudança identificado entre 2013 e 2014. A taxa de aquecimento atual, segundo o modelo utilizado, situa-se entre 0,34°C e 0,42°C por década, ou seja, praticamente o dobro da taxa média das últimas décadas. 

Se este ritmo se mantiver, o limite de 1,5°C acima dos valores pré-industriais estabelecido pelo Acordo de Paris será ultrapassado antes de 2030. 

Importa sublinhar que este limiar não é violado por um único ano quente. O próprio Acordo de Paris define a sua violação como a superação desse valor em média ao longo de 20 anos. Ainda assim, os autores alertam que os dados apontam claramente para essa direção. 

As causas possíveis 

O estudo não se debruça sobre as causas da aceleração, mas enquadra-a. A hipótese mais discutida na literatura científica aponta para a redução das emissões de aerossóis poluentes, partículas que, paradoxalmente, tinham um efeito de arrefecimento sobre o clima. Com menos poluição industrial na atmosfera, esse efeito de “sombra” diminuiu, expondo o planeta a um aquecimento que estava parcialmente mascarado. 

Os autores concluem com uma nota que é simultaneamente científica e política: o aquecimento global pode ser travado se a humanidade atingir emissões líquidas nulas de CO₂. Mas, no contexto político atual, advertem, é possível que o ritmo de aquecimento se mantenha ou até acelere. 

“Se a taxa de aquecimento da última década se mantiver, o limite de 1,5°C do Acordo de Paris será ultrapassado por volta de 2030”, escrevem os autores. 

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