
A eletrificação do transporte rodoviário está a assumir um papel central no reforço da segurança energética europeia, num contexto marcado por tensões geopolíticas e volatilidade nos mercados energéticos. Uma análise recente da Transport & Environment (T&E) demonstra que a aposta nos veículos elétricos pode reduzir significativamente a dependência da União Europeia das importações de petróleo, enquanto oferece maior estabilidade de custos aos consumidores.
Atualmente, o transporte rodoviário é o principal responsável pela dependência europeia de petróleo, com os automóveis a representarem uma fatia substancial. Em 2025, as importações de petróleo associadas apenas a carros deverão atingir cerca de mil milhões de barris, com um custo estimado de 67 mil milhões de euros. Este cenário expõe a economia europeia a choques externos, especialmente em períodos de crise energética.
A eletrificação surge como uma alternativa estratégica. Segundo a análise, os cerca de 8 milhões de veículos elétricos já em circulação na União Europeia permitirão evitar a importação de 46 milhões de barris de petróleo em 2025, traduzindo-se numa poupança de aproximadamente 2,9 mil milhões de euros. A longo prazo, políticas mais ambiciosas poderão evitar até 2,2 mil milhões de barris de importações entre 2026 e 2035, gerando poupanças na ordem dos 150 mil milhões de euros.
Além disso, os veículos elétricos revelam-se mais resilientes a crises energéticas. Durante períodos de subida acentuada dos preços do petróleo, os condutores de veículos a combustão enfrentam aumentos significativamente superiores nos custos de utilização. A análise indica que os condutores de carros a gasolina podem ser até cinco vezes mais expostos a choques de preços do que os utilizadores de veículos elétricos.
Para Portugal, estas conclusões assumem particular relevância. Como sublinha Patrícia Baptista, coordenadora científica da Cidades pelo Clima, “a eletrificação do transporte rodoviário constitui efetivamente um pilar essencial para reforçar a segurança energética europeia, reduzindo a dependência face às importações de petróleo”. A especialista destaca que esta realidade é especialmente importante num país “altamente dependente de importações energéticas”.
No caso português, a combinação entre eletrificação da mobilidade e elevada incorporação de energias renováveis na produção elétrica oferece vantagens adicionais. “A eletrificação da mobilidade, aliada à elevada incorporação de fontes renováveis na produção de eletricidade, pode reduzir a exposição à volatilidade de preços dos produtos petrolíferos”, explica. Do ponto de vista do consumidor, acrescenta, “o aumento observado nas últimas semanas no preço dos combustíveis fósseis não deverá ter um impacto direto no custo da eletricidade”, contribuindo para maior estabilidade nos custos de mobilidade.
No entanto, a transição energética não elimina completamente as dependências externas. Pelo contrário, desloca parte do risco para as cadeias de abastecimento de matérias-primas críticas, como o lítio, o cobalto ou as terras raras, essenciais para a produção de baterias. Esta nova realidade expõe a Europa a desafios relacionados com a concentração geográfica da extração e processamento destes recursos, bem como à volatilidade dos mercados globais.
Patrícia Baptista alerta que “a segurança energética baseada na eletrificação exige uma estratégia complementar que inclua o desenvolvimento de uma economia circular”, nomeadamente através da reciclagem de baterias e da diversificação de fornecedores. Sem estas medidas, “a substituição da dependência do petróleo poderá dar lugar a uma nova vulnerabilidade tecnológica”.
Apesar destes desafios, a eletrificação representa também uma oportunidade estratégica para a indústria automóvel portuguesa. O país dispõe de competências relevantes na produção de componentes e no desenvolvimento de soluções inovadoras, podendo posicionar-se em nichos de maior valor acrescentado.
Entre as áreas com maior potencial destacam-se os veículos elétricos ligeiros, soluções de mobilidade urbana especializada, componentes para baterias e sistemas integrados de energia e mobilidade. “Esta abordagem permitiria não apenas acompanhar a transição europeia, mas posicionar o país como fornecedor de valor acrescentado em segmentos específicos da indústria nacional”, conclui a especialista.



