
Num momento em que a crise climática se intensifica e se registam recuos nos compromissos ambientais, compreender o que leva, ou impede, os cidadãos de agir tornou-se central. Um estudo de Cintia Díaz-Silveira, María Luisa Vecina, María Alonso-Ferres e Francisco Burgos, intitulado Emergência Climática e os Cidadãos, publicado no website da Fundação La Caixa, ajuda a clarificar esse paradoxo: apesar da elevada consciência, a ação continua aquém do necessário.
Este estudo analisa os resultados de um inquérito realizado a uma amostra representativa de 1.912 pessoas residentes em Espanha, com o objetivo de explorar as suas atitudes e emoções face à crise climática, bem como os fatores sociodemográficos e psicológicos associados ao comportamento pró-ambiental.
Emoções como motor da ação
A análise demonstra que a ação ambiental não é movida apenas pelo conhecimento ou pelo medo, mas também por um conjunto complexo de emoções, sobretudo a raiva, a preocupação e a esperança. O mapa emocional revela nuances importantes. Cerca de 44% dos inquiridos sentem níveis elevados de raiva face à crise climática, frequentemente associada à perceção de inação política, o que funciona como um potente motivador, capaz de impulsionar comportamentos de pressão social e exigência de mudanças. A eco-ansiedade está presente em 28% da população, mas com menor intensidade, indicando que o medo não é o principal motor da ação. Em paralelo, cerca de 33% da população sente fadiga climática, ou seja, saturação face ao tema, o que reduz significativamente o envolvimento e atua como travão emocional.
Perceção versus comportamento
A perceção da gravidade das alterações climáticas é elevada, com uma média de 4,05 numa escala de 1 a 5. Ainda assim, os níveis de preocupação (3,4) e, sobretudo, de comportamento pró-ambiental (3,5) ficam aquém do desejável, e apenas 26% dos inquiridos afirmam adotar frequentemente práticas sustentáveis. Mais revelador ainda é o facto de a perceção da gravidade explicar apenas 13,3% do comportamento ambiental, mostrando que saber não basta para agir.
O estudo identifica os verdadeiros motores da ação: a chamada “agência climática”, ou seja, a perceção de que as ações individuais têm impacto, explica 35,9% do comportamento pró-ambiental, sendo o fator mais determinante. Seguem-se a preocupação ambiental, que contribui com 17,7%, e a raiva, com 16,7%. Em contraste, a fadiga climática funciona como travão, reduzindo significativamente o envolvimento.
Diferenças entre grupos
As análises por grupo aprofundam a compreensão do comportamento. As mulheres apresentam níveis ligeiramente mais elevados de comportamentos sustentáveis e emoções associadas, como culpa e esperança. A idade também se mostra determinante: à medida que aumenta, cresce o sentimento de capacidade de agir e a frequência de comportamentos sustentáveis, enquanto os mais jovens apresentam maior fadiga e menor perceção de eficácia. Perspetivas sociodemográficas adicionais revelam que as pessoas com comportamentos mais sustentáveis tendem a ser mulheres, com mais de 50 anos, elevado nível de escolaridade e ideologia política de caráter progressista.
Condições socioeconómicas
Uma das conclusões mais críticas surge nas condições de vida. Cerca de 22% da população afirma que as suas circunstâncias dificultam a adoção de comportamentos pró-ambientais, evidenciando que a ação climática não depende apenas de consciência ou motivação, mas também da capacidade real de escolha. Ainda assim, 47% referem não enfrentar grandes obstáculos, sugerindo uma sociedade dividida entre possibilidade e limitação. Existe ainda uma relação positiva entre satisfação com a vida e comportamento sustentável, indicando que o bem-estar pode reforçar o envolvimento ambiental.
Conclusão: a ação climática é multifatorial
O estudo mostra que o desafio climático não é apenas técnico ou político, mas também comportamental. A lacuna entre perceção e ação resulta de uma combinação de fatores emocionais, sociais e psicológicos. Entre os fatores emocionais, destacam-se a raiva, a preocupação, a fadiga e a esperança. Entre os fatores sociais, salientam-se as condições socioeconómicas, o acesso a recursos e o apoio comunitário. Entre os fatores psicológicos, a perceção de agência e de eficácia individual é determinante.
Informar continua a ser necessário, mas é insuficiente. A transição exige criar condições concretas para agir, reforçar o sentimento de eficácia individual e evitar a saturação informativa. No fim, não é apenas o que sabemos sobre a crise climática que determina a resposta: é o que sentimos que podemos fazer em relação a esta.



