Estudo revela que menos de 15% dos europeus vivem perto de natureza urbana

Um novo estudo publicado na revista Nature Communications mostra um cenário preocupante para as cidades europeias: apesar dos benefícios reconhecidos dos espaços verdes, a maioria dos cidadãos ainda não tem acesso adequado à natureza no seu quotidiano. 

A investigação, conduzida por cientistas da Comissão Europeia e de universidades europeias, analisou 862 cidades, incluindo cidades portuguesas, e concluiu que menos de 15% da população urbana cumpre a chamada “regra 3-30-300”, um conjunto de critérios considerados essenciais para garantir qualidade de vida nas cidades. 

O que é a regra 3-30-300? 

Criada como uma orientação simples para o planeamento urbano, a regra estabelece três condições: ver pelo menos três árvores a partir de casa, viver num bairro com 30% de cobertura arbórea e ter um parque a menos de 300 metros. 

No entanto, os resultados mostram que estas metas estão longe de ser uma realidade para a maioria dos europeus. Cerca de 21% dos habitantes vivem em áreas que não cumprem nenhum dos critérios, enquanto mais de metade apenas satisfaz um ou nenhum deles. 

Um dos aspetos mais marcantes do estudo é a desigualdade no acesso a espaços verdes. As cidades mais ricas apresentam níveis significativamente mais elevados de cobertura vegetal, enquanto regiões mais pobres ou com climas mais secos, sobretudo no sul e sudeste da Europa, tendem a ficar para trás. 

Segundo os investigadores, existe uma relação clara entre rendimento e acesso à natureza: populações com maior rendimento vivem, em média, em zonas mais verdes

Esta desigualdade levanta preocupações não apenas ambientais, mas também sociais e de saúde pública, uma vez que os espaços verdes estão associados à redução do stress, melhoria da qualidade do ar e diminuição das temperaturas urbanas. 

Nem todos os critérios são iguais 

Entre os três indicadores analisados, o acesso a parques é o mais comum: cerca de 57% da população urbana vive a menos de 300 metros de um espaço verde

Já o critério mais difícil de cumprir é o da cobertura arbórea: apenas cerca de 28% dos residentes vivem em bairros com pelo menos 30% de árvores, revelando uma forte carência de vegetação nas cidades. 

Quanto à visibilidade de árvores, menos de metade da população consegue ver pelo menos três árvores a partir da sua habitação ou local de trabalho. 

O estudo destaca ainda uma tendência preocupante: o crescimento urbano não tem sido acompanhado por um aumento proporcional de espaços verdes. Entre 2010 e 2020, a população urbana europeia cresceu significativamente, mas a cobertura vegetal manteve-se estável ou até diminuiu. 

Sem intervenção, alertam os autores, o problema poderá agravar-se nas próximas décadas. 

Um desafio para o futuro das cidades 

Os investigadores defendem que é urgente repensar o planeamento urbano, integrando mais natureza nas cidades de forma equitativa. Soluções como parques de pequena escala, arborização de ruas e telhados verdes são apontadas como alternativas viáveis, sobretudo em zonas densamente construídas. 

Mais do que uma questão estética, sublinham, trata-se de uma prioridade estratégica para enfrentar desafios como as alterações climáticas, as ondas de calor e a saúde pública. 

Fonte: Bertassello et al. (2026), Assessing European cities with the 3-30-300 rule underscores the need for enhanced urban greening efforts, Nature Communications.