
As alterações climáticas já estão a transformar o quotidiano das crianças, desde os impactos na saúde física e mental até à perda de autonomia nas cidades, e exigem respostas urgentes das políticas públicas, da mobilidade urbana e do planeamento das cidades. O alerta marcou a sessão de 14 de maio do II Ciclo de Webinars da UNICEF “Cidades Amigas das Crianças”, com o tema “O impacto das alterações climáticas na infância”.
Na sessão, Maria João Rodrigues, coordenadora executiva da Cidades pelo Clima, e Patrícia Baptista, coordenadora científica, alertaram para o facto da crise climática não afetar todas as crianças da mesma forma e que as desigualdades sociais tendem a amplificar os riscos associados ao calor extremo, à poluição e à falta de acesso a espaços urbanos mais saudáveis.
Os efeitos das alterações climáticas já são visíveis em fenómenos como ondas de calor mais frequentes, escassez de água, degradação da qualidade do ar e eventos meteorológicos extremos, todos eles com impactos diretos na infância. “Estamos perante uma geração particularmente vulnerável”, alertou Maria João Rodrigues, ao apresentar dados internacionais que apontam para cerca de mil milhões de crianças em situação de risco climático extremo em todo o mundo.
As ondas de calor foram apontadas como uma das ameaças mais preocupantes. Crianças e adolescentes têm menor capacidade de regulação térmica, tornando-se mais suscetíveis a desidratação, golpes de calor e agravamento de doenças respiratórias.
A qualidade do ar foi outro dos temas centrais da sessão. Maria João Rodrigues lembrou que as crianças respiram mais rapidamente do que os adultos e possuem organismos ainda em desenvolvimento, fatores que aumentam os riscos associados à poluição atmosférica.
As crianças e jovens e a saúde mental
Os impactos da crise climática vão além da saúde física. A crescente ansiedade climática entre os jovens também esteve em destaque, com relatos cada vez mais frequentes de sentimentos de medo, tristeza, culpa e impotência perante o futuro climático.
Foi precisamente sobre desigualdade e vulnerabilidade social que incidiu grande parte da intervenção de Patrícia Baptista. A investigadora explicou que crianças de contextos socioeconómicos mais frágeis tendem a viver em zonas urbanas mais expostas ao calor, ao tráfego rodoviário intenso e à escassez de espaços verdes.
Além disso, enfrentam maiores dificuldades de acesso a atividades ao ar livre e menor participação nos processos de decisão sobre o espaço urbano. “Não é uma questão de indiferença. Muitas destas crianças vivem rodeadas de problemas mais urgentes no dia a dia”, explicou.
Os dados apresentados durante o webinar mostram também que a perceção do risco climático varia consoante o contexto social e educativo das famílias. Um estudo realizado no Reino Unido revelou que 47% das crianças provenientes de agregados com maior acesso a livros demonstram preocupação com as alterações climáticas, enquanto esse valor desce para 20% em famílias com menor literacia.
Mobilidade urbana e impacto na infância
A mobilidade urbana acabou por surgir como um dos temas mais relevantes da sessão, sobretudo pelo impacto direto que o modelo atual de transporte tem na infância.
Patrícia Baptista recordou que o setor dos transportes continua a ser um dos maiores responsáveis pelas emissões de gases com efeito de estufa e um dos principais fatores de degradação da qualidade do ar nas cidades. O problema torna-se particularmente visível junto das escolas. Em Lisboa, por exemplo, 56% das deslocações casa-escola continuam a ser feitas em automóvel privado.
Segundo a investigadora, esta dependência do carro cria um ciclo difícil de quebrar: mais trânsito gera maior sensação de insegurança rodoviária, levando mais pais a optarem pelo automóvel para transportar os filhos. O resultado é menos autonomia infantil, mais sedentarismo e um espaço urbano menos seguro e saudável.
Durante a sessão foram apresentados exemplos internacionais de cidades que têm procurado inverter esta tendência. Paris foi destacada pelo programa “Ruas Escolares”, que já transformou centenas de ruas junto a escolas em zonas mais seguras, com menos tráfego e mais espaço pedonal e verde.
Também Oslo foi apontada como exemplo pelas zonas de proteção rodoviária criadas em torno das escolas, medidas que ajudaram a reduzir a sinistralidade infantil e incentivaram deslocações a pé e de bicicleta.
No final, as especialistas defenderam que a resposta às alterações climáticas passa também por uma nova forma de educar e envolver os jovens. Mais do que transmitir informação, consideram essencial transformar a literacia climática em capacidade de ação concreta.
“Esta educação climática tem de ir muito para além da sala de aula”, sublinhou Patrícia Baptista, defendendo abordagens mais participativas, próximas das comunidades e emocionalmente conscientes da ansiedade climática que afeta cada vez mais crianças e jovens.



