
Terminada a 22 de novembro de 2025, em Belém, a COP30 foi apresentada pela Presidência brasileira como a “COP da implementação”, o momento em que os compromissos climáticos assumidos nos últimos anos deveriam começar a transformar-se em ação concreta. O resultado ficou a meio caminho: houve avanços reais, sobretudo na adaptação, mas também lacunas que vão marcar a agenda da COP31, em Antália, Turquia.
O que avançou
A conferência aprovou 56 decisões por consenso, reunidas no chamado “Pacote de Belém”. Entre os avanços mais citados está a adaptação às alterações climáticas, área que a própria Presidência classificou como prioritária. Pela primeira vez, os países adotaram um conjunto de indicadores formais para medir o progresso da adaptação a nível global: os 59 Indicadores de Adaptação de Belém, resultado de um longo processo negocial que partiu de uma lista inicial com cerca de dez mil propostas.
Ao mesmo tempo, os países assumiram um sinal político para triplicar o financiamento dedicado à adaptação até 2035, dinheiro que serve para ajudar comunidades a lidar com impactos climáticos já em curso, como a construção de infraestruturas resistentes a cheias ou o reforço de sistemas de alerta precoce. Não se trata ainda de um compromisso vinculativo, mas é visto como um passo político relevante.
Para acelerar a passagem dos compromissos à ação, a Presidência lançou ainda dois mecanismos: o Global Implementation Accelerator, uma plataforma voluntária para ajudar os países a concretizar os seus planos nacionais de clima e adaptação, e a Belém Mission to 1.5, um esforço conjunto entre as presidências da COP30 e da COP31 para manter viva a meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C.
O que ficou por resolver
Apesar destes avanços, a COP30 não conseguiu reunir consenso em pontos considerados centrais por muitos países e organizações:
- Combustíveis fósseis: ausência de um roteiro formal para a transição fora dos combustíveis fósseis foi o ponto mais mediático. Mais de 80 países pediram a sua inclusão, mas o tema acabou por ficar de fora do texto final negociado. Perante a ausência de consenso no processo negociador, a Presidência brasileira anunciou um roteiro presidencial, não negociado nem adotado como decisão da UNFCCC.
- Desflorestação: tal como nos combustíveis fósseis, não foi possível incluir um roteiro formal de combate à desflorestação no texto oficial, apesar de a COP30 ter sido vista como uma “COP da Amazónia”. A Presidência brasileira lançou, também fora do processo oficial, um roteiro paralelo sobre este tema.
- Escala do financiamento climático: ficou definido o Roteiro de Baku a Belém, rumo à meta de 1,3 biliões de dólares por ano, mas o roteiro é uma estratégia para mobilizar e ampliar os fluxos financeiros; não significa que US$1,3 biliões anuais estejam já disponíveis, e a própria UNFCCC continua a assinalar a necessidade de aumentar substancialmente o financiamento, sobretudo para países vulneráveis e em desenvolvimento.
- O fosso até 1,5°C: em vez de medidas vinculativas para fechar a distância entre as metas climáticas atuais dos países e a trajetória necessária para os 1,5°C, os países concordaram apenas em lançar dois mecanismos voluntários, o Global Implementation Accelerator e a Belém Mission to 1.5°C, sem metas numéricas ou prazos associados. Há cada vez mais vozes a assinalar que um ultrapassar temporário desta meta é agora mais provável.
- Os próprios indicadores de adaptação: Apesar da aprovação, os indicadores não encerram o debate técnico: são voluntários e não prescritivos, e continuam em desenvolvimento os metadados e metodologias necessários para a sua aplicação e comparação. A UNFCCC reconhece ainda a necessidade de continuar o trabalho técnico, nomeadamente sobre a agregação e utilização dos indicadores.”
- Da decisão à ação: fica por resolver, de forma mais ampla, o desafio de transformar decisões multilaterais em implementação concreta no terreno. Mecanismos como o Global Implementation Accelerator foram desenhados precisamente para colmatar esta lacuna, mas a sua eficácia real só poderá ser avaliada nos próximos anos — a começar pela COP31.
Estes temas – adaptação, financiamento, combustíveis fósseis e o fosso entre compromissos e ação – vão estar no centro da COP31, que se realiza entre 9 e 20 de novembro de 2026, em Antália, Turquia.



