Joana Fernandes e Paulo Ferrão (IN+) apresentam método que pode reduzir emissões na reabilitação de edifícios

Um novo estudo português revela que a forma como reabilitamos edifícios pode ter um impacto decisivo na luta contra as alterações climáticas se forem feitas as escolhas certas. A investigação, conduzida por Joana Fernandes e Paulo Ferrão, do IN+ – Centro de Estudos em Inovação, Tecnologia e Políticas de Desenvolvimento, do Instituto Superior Técnico, propõe um novo método de avaliar projetos de reabilitação que combina duas dimensões fundamentais: a economia circular e o carbono incorporado nos materiais. 

O trabalho, publicado na revista Developments in the Built Environment, sob o título Bridging circular economy and embodied carbon: A quantitative assessment method for building refurbishment design, apresenta o Carbon Circularity Method (CCM), um método inovador que ajuda a perceber quais as soluções de projeto que realmente reduzem emissões e quais apenas parecem sustentáveis. 

Circular não significa sempre “verde” 

A construção é um dos setores mais poluentes do mundo: consome mais de 30% dos recursos naturais globais e é responsável por cerca de 11% das emissões de gases com efeito de estufa. Por isso, reabilitar em vez de construir de raiz é considerado um caminho mais sustentável. Mas, segundo o estudo, há uma armadilha comum: muitos métodos que avaliam a circularidade dos materiais ignoram a sua pegada de carbono. 

Um material pode ser altamente reciclável ou reutilizável, mas ter emissões muito elevadas associadas à sua produção, explicam os autores. O resultado? Projetos que parecem ambientalmente responsáveis podem, na verdade, aumentar as emissões. 

Um método que junta circularidade e carbono incorporado 

É para resolver esta falha que Fernandes e Ferrão desenvolvem o Carbon Circularity Method (CCM). Ao contrário dos métodos existentes, que tratam circularidade e carbono como métricas separadas, o CCM integra ambas diretamente nas fórmulas de avaliação, criando indicadores que refletem o impacto real de cada decisão de projeto. Com o CCM, arquitetos e engenheiros podem comparar diferentes soluções de projeto — como tipos de janelas, portas ou revestimentos — e avaliar qual delas tem o menor impacto ambiental ao longo de todo o ciclo de vida do edifício. 

Aplicado a um caso de estudo, o método trouxe conclusões surpreendentes: materiais que surgiam como “mais circulares” em avaliações tradicionais revelaram-se, afinal, muito mais poluentes quando o carbono incorporado era contabilizado. Já opções menos valorizadas pela circularidade mostraram um desempenho climático superior. 

Decisões de projeto fazem a diferença 

A mensagem central do estudo é clara: a fase de projeto é crítica para a sustentabilidade de um edifício, e escolhas pouco informadas podem comprometer completamente os objetivos climáticos. Com o novo método, os investigadores oferecem uma ferramenta concreta para evitar esse risco. 

Numa altura em que o setor da construção é pressionado a reduzir emissões e a alinhar-se com a transição para uma economia circular, este trabalho mostra que reabilitar bem é mais do que preservar o património: é uma oportunidade estratégica para cortar emissões, poupar recursos e preparar cidades para o futuro. 

Leia o estudo aqui