
Mudar a forma como nos deslocamos nas cidades continua a ser um dos grandes desafios da mobilidade urbana. Para muitas pessoas, caminhar, pedalar ou utilizar modos suaves é difícil, pouco prático ou pouco agradável — não necessariamente por falta de vontade, mas porque o espaço urbano nem sempre responde às suas necessidades. Ainda assim, o planeamento urbano e dos transportes tende a reproduzir soluções do passado, sem acompanhar as transformações sociais, as expectativas e os estilos de vida contemporâneos.
É neste contexto que surge o projeto Flowers of Proximity, uma abordagem inovadora que coloca as pessoas no centro da reflexão sobre acessibilidade, mobilidade e qualidade de vida.
Um novo olhar sobre a acessibilidade
A metodologia parte de um princípio simples: em vez de analisar apenas as deslocações que as pessoas fazem hoje, procura perceber as deslocações que gostariam de poder fazer e de que forma. Esta mudança de perspetiva foca-se menos nos comportamentos atuais e mais no potencial de cada território, ajudando a imaginar cidades mais acessíveis, saudáveis e equitativas.
O conceito está alinhado com o planeamento baseado na acessibilidade, que valoriza a facilidade com que residentes podem chegar aos serviços, atividades e oportunidades essenciais do dia a dia. Ao centrar a discussão nas escolhas desejadas e não apenas nas existentes, a abordagem oferece pistas concretas para transformar bairros e cidades.
A origem: repensar o ideal do bairro de proximidade
As primeiras “flores” surgiram em 2019, desenvolvidas por Ana Gil Sola e Bertil Vilhelmson, no contexto de abordagens participativas de acessibilidade e proximidade. Mais tarde, o conceito evoluiu e foi sendo utilizado e adaptado por diferentes equipas de investigação e planeamento urbano, incluindo trabalhos dedicados à reflexão sobre o modelo da cidade de 15 minutos, que promove o acesso a serviços essenciais a pé ou de bicicleta a partir de casa.
Em ambiente de workshop, os participantes são convidados a imaginar o seu “bairro ideal”, descrevendo como gostariam de aceder aos lugares mais importantes das suas rotinas: escola, comércio, espaços verdes, cuidados de saúde, cultura. Esta reflexão coletiva gera conversas ricas sobre o significado da proximidade e sobre as diferenças entre necessidades individuais em diferentes contextos urbanos.
A ferramenta já foi aplicada em várias cidades do mundo, mostrando como a ideia de proximidade pode ser interpretada, valorizada e sentida de múltiplas formas.
Digital Flowers of Proximity: quando a participação encontra a tecnologia
Para ampliar o alcance e permitir análises mais robustas, foi criada uma versão digital: as Digital Flowers of Proximity. Esta adaptação online foi desenvolvida por Bartosz McCormick, no âmbito do seu doutoramento integrado no projeto DUT Common Access.
A versão digital reforça a componente quantitativa, integrando diferentes modos de transporte e permitindo uma visão mais ampla e multimodal —da vida urbana.
Com esta evolução, as Digital Flowers of Proximity dialogam com a transformação do conceito de cidade de proximidade, que hoje se estende para visões mais flexíveis como o “território de 30 minutos”: um modelo que continua a valorizar a vida local, mas admite escalas de mobilidade mais equilibradas e diversas.
O método ajuda decisores públicos, urbanistas e comunidades a compreender:
- O que as pessoas realmente desejam nas suas rotinas diárias
- Como equilibrar proximidade e mobilidade
- Onde investir para melhorar acessos, segurança e qualidade urbana
- Quais barreiras sentidas e percecionadas condicionam escolhas sustentáveis
Ao devolver o planeamento urbano às aspirações das pessoas, as Flowers of Proximity tornam-se uma poderosa ferramenta de apoio à construção de cidades mais habitáveis, inclusivas e ambientalmente responsáveis.



