
O relatório Key figures on the European food chain – 2025 edition, publicado pelo Eurostat, reúne um vasto conjunto de estatísticas oficiais sobre a forma como os alimentos são produzidos, transformados, distribuídos e consumidos na União Europeia (UE) e nos países da Associação Europeia de Comércio Livre (EFTA). O objetivo é fornecer uma base sólida de dados para apoiar o debate público e a definição de políticas em áreas como segurança alimentar, inflação, sustentabilidade ambiental e resiliência do sistema alimentar.
O que analisa o relatório
A publicação está estruturada em três grandes dimensões da cadeia alimentar:
- Produção, com enfoque na agricultura e nas pescas, incluindo a estrutura das explorações agrícolas, a produção vegetal e animal, o leite e a mão de obra agrícola;
- Distribuição, abrangendo o comércio internacional, os transportes e as atividades de grosso, retalho e restauração;
- Consumo e ambiente, analisando padrões de consumo alimentar e os impactos ambientais da cadeia alimentar, como emissões de gases com efeito de estufa e uso de recursos naturais.
Produção agrícola: concentração e transformação estrutural
Em 2020, existiam 9,1 milhões de explorações agrícolas na UE, que utilizavam cerca de 38,4% do território europeu. Apesar deste número elevado, o setor caracteriza-se por uma forte assimetria: quase 64% das explorações tinham menos de 5 hectares, enquanto apenas 3,6% das explorações, com mais de 100 hectares, concentravam mais de metade da terra agrícola. Entre 2010 e 2020, desapareceram cerca de 3 milhões de explorações, sobretudo de pequena dimensão, refletindo um processo de consolidação estrutural do setor.
A agricultura biológica continua a ganhar peso. Em 2023, cerca de 10,8% da superfície agrícola utilizada era explorada em modo biológico, quase o dobro do valor registado em 2013. Estas explorações tendem a ser maiores, mais produtivas em termos de valor económico e mais intensivas em trabalho do que as explorações convencionais, alinhando-se com o objetivo europeu de alcançar 25% de agricultura biológica até 2030.
Produção vegetal e animal: impactos climáticos e volatilidade
Em 2024, a UE produziu cerca de 258 milhões de toneladas de cereais, mas este valor representou uma quebra significativa face a anos anteriores, devido a condições meteorológicas extremas, como secas prolongadas no centro e sudeste da Europa e precipitação excessiva noutras regiões. As alterações climáticas surgem, assim, como um fator central de instabilidade produtiva.
No setor pecuário, o efetivo animal tem vindo a diminuir desde 2009. Ainda assim, em 2024, a UE mantinha uma produção expressiva, com 21,1 milhões de toneladas de carne de suíno, 14,1 milhões de toneladas de carne de aves e 6,6 milhões de toneladas de carne de bovino. Os preços agrícolas mostraram grande volatilidade nos últimos anos, influenciados pelos custos da energia, dos fertilizantes e pelas perturbações geopolíticas nos mercados globais.
Leite e lacticínios: um pilar do sistema alimentar
A produção de leite cru na UE atingiu 161,8 milhões de toneladas em 2024, com a maioria a ser transformada em produtos como leite de consumo, queijo, manteiga e soro. A Alemanha destacou-se como principal produtor europeu de lacticínios, enquanto países do sul da Europa assumiram um papel relevante na produção de leite de ovelha e cabra, refletindo especificidades regionais e climáticas.
Emprego agrícola: envelhecimento e desafios sociais
O relatório evidencia um setor agrícola marcado pelo envelhecimento: 32,6% dos gestores agrícolas tinham 65 anos ou mais, enquanto apenas 12,2% tinham menos de 40 anos. O emprego agrícola representa uma fatia cada vez menor do total do emprego na UE, embora continue associado a horários de trabalho mais longos, níveis de escolaridade mais baixos e maior risco profissional, incluindo uma taxa de acidentes fatais significativamente superior à média da economia.
Ambiente e políticas públicas: o papel da PAC
A agricultura foi responsável por 11,8% das emissões de gases com efeito de estufa da UE em 2023, sublinhando a importância das políticas ambientais no setor. A Política Agrícola Comum (PAC) 2023–2027, com um orçamento de 269,5 mil milhões de euros, reforça o apoio a práticas mais sustentáveis, à biodiversidade e à renovação geracional, enquanto procura garantir rendimentos justos aos agricultores e a estabilidade do abastecimento alimentar.
Conclusões principais
O relatório mostra que a cadeia alimentar europeia continua a ser economicamente robusta, mas enfrenta desafios estruturais profundos: concentração das explorações, envelhecimento dos agricultores, impactos crescentes das alterações climáticas e pressão ambiental. Ao mesmo tempo, evidencia oportunidades claras na transição para sistemas mais sustentáveis, inovadores e resilientes, em linha com a Visão da UE para a Agricultura e a Alimentação até 2040.



