
A União Europeia poderia reduzir o seu impacto climático em 22%, o equivalente a quase mil milhões de toneladas de CO₂, apenas com a implementação de 17 medidas de economia circular. A conclusão consta de um novo relatório da Agência Europeia do Ambiente (AEA), The environmental and climate benefits of a circular economy, que modela pela primeira vez o potencial conjunto destas intervenções nos setores da alimentação, habitação, mobilidade e bens de consumo.
Os resultados revelam que a transição para uma economia mais circular não é apenas uma questão ambiental, mas também estratégica. A dependência europeia de metais críticos importados, caso do alumínio, níquel, cobre e os metais do grupo da platina, poderia ser reduzida entre 12% e 20%, com implicações diretas para a segurança de abastecimento da UE num contexto geopolítico cada vez mais volátil.
Habitação, alimentação e mobilidade: os três pilares da mudança
O relatório identifica os domínios onde as poupanças seriam mais expressivas. Na habitação, prolongar a vida útil dos edifícios, reutilizar componentes de construção e reduzir a área média das habitações poderia representar até 60% do total de reduções na poluição atmosférica e uma fatia significativa das emissões de carbono evitadas. A razão é direta: construir menos significa consumir menos cimento, aço e outros materiais de elevada intensidade energética.
Na alimentação, a transição para sistemas menos intensivos em recursos, nomeadamente a redução do consumo de proteínas animais, surge como a intervenção com maior impacto isolado em toda a análise. Por si só, esta mudança dietética representaria 50% de todas as poupanças em biodiversidade modeladas no estudo. A redução do desperdício alimentar reforça este efeito: menos produção significa menos pressão sobre o uso do solo.
Na mobilidade, o aumento da partilha de automóveis e a redução da dependência do transporte individual surgem entre as cinco medidas com maior potencial climático, contribuindo também para 23% das reduções na poluição por partículas finas.
Ambição faz diferença
Um dos dados mais relevantes do relatório diz respeito ao nível de ambição com que as medidas são implementadas. Aplicar as 17 intervenções com elevado nível de exigência gera mais de 80% de benefícios adicionais face a um cenário de ambição média, em todas as dimensões analisadas: clima, biodiversidade e poluição do ar.
Inquestionável de acordo com o relatório é que políticas tímidas entregam resultados tímidos. O documento sublinha a necessidade de metas ambiciosas e de acelerar os regulamentos já em curso, como o Regulamento de Conceção Ecológica para Produtos Sustentáveis, que incide precisamente na durabilidade dos produtos.
Os benefícios ultrapassam fronteiras
Um terço dos ganhos climáticos e de qualidade do ar decorrentes destas medidas ocorreria fora do território europeu, reflexo do facto de a UE importar grandes volumes de recursos e produtos de outras regiões do mundo. Para a biodiversidade, a distribuição é ainda mais equitativa: metade dos benefícios verificar-se-ia no exterior da União.
Isto significa que a política europeia de economia circular tem um alcance global, com efeitos positivos nas cadeias de valor de países terceiros onde a produção tem lugar.
Uma economia de baixo carbono não invalida a circularidade
O relatório aborda ainda uma questão frequentemente levantada: se a energia se tornar maioritariamente renovável, os ganhos da economia circular não serão menores? A resposta tem várias nuances. Em termos absolutos, os benefícios climáticos reduzem-se num cenário de economia descarbonizada, de cerca de mil milhões para 300 milhões de toneladas de CO₂ evitadas. Contudo, em termos percentuais, a diferença é marginal: 22% hoje, 20% numa economia de baixo carbono.
Além disso, os benefícios para a biodiversidade e para a qualidade do ar dependem menos da energia e mantêm-se robustos em qualquer cenário.



