
Quando se fala de ação climática, o debate continua muitas vezes centrado nos governos nacionais e nas grandes negociações internacionais. No entanto, é cada vez mais evidente que a concretização dos objetivos climáticos depende, em larga medida, da capacidade de investimento dos municípios, regiões e comunidades locais.
A razão é simples: é nas cidades e nos territórios que os impactos das alterações climáticas se fazem sentir de forma mais direta e onde as soluções podem ser implementadas com maior rapidez e eficácia.
Segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), as cidades representam cerca de 70% das emissões globais de gases com efeito de estufa. De acordo com a ONU-Habitat são responsáveis pelo consumo de aproximadamente 67% da energia mundial. Ao mesmo tempo, concentram uma parte significativa da população mais vulnerável aos efeitos do aquecimento global, incluindo ondas de calor, cheias, secas e fenómenos meteorológicos extremos.
O custo da inação é cada vez maior
A evidência científica consolidada pelo IPCC e por estudos recentes mostra que, nas últimas décadas, a frequência e intensidade de vários tipos de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, precipitações intensas, secas e incêndios florestais, aumentaram significativamente, sendo este padrão consistente com o aquecimento global de origem humana. Para os municípios, isto traduz-se em danos nas infraestruturas, interrupções de serviços essenciais, impactos na saúde pública e prejuízos económicos crescentes.
Perante este cenário, a questão deixou de ser se devemos investir em adaptação e mitigação climática, passando a ser quanto custa não o fazer.
Diversos estudos internacionais (como Strengthening the Investment Case for Climate Adaptation: A Triple Dividend Approach do World Resources Institute) demonstram que os investimentos em resiliência climática geram retornos económicos muito superiores ao seu custo inicial. Investigação recente analisando centenas de projetos de adaptação concluiu que cada euro investido em resiliência pode gerar múltiplos benefícios económicos ao longo da vida útil dos projetos, através da redução de perdas, proteção de infraestruturas, diminuição dos custos de recuperação e melhoria da qualidade de vida das populações.
As cidades já estão a liderar a transformação
Apesar das limitações financeiras, muitas cidades estão a avançar mais rapidamente do que os próprios Estados na implementação de soluções climáticas.
Dados da Global Covenant of Mayors mostram que os municípios podem contribuir para uma redução anual de até 4,5 gigatoneladas de CO₂ até 2050, desempenhando um papel decisivo no cumprimento das metas do Acordo de Paris. Contudo, o mesmo relatório alerta para um problema crítico: embora dois terços dos compromissos climáticos nacionais já reconheçam a importância das cidades, apenas uma pequena parte identifica os recursos financeiros necessários para que estas possam concretizar as suas ações (14%).
Uma avaliação conjunta da Global Covenant of Mayors e da rede C40 concluiu ainda que muitas cidades estão a reduzir as emissões per capita a um ritmo superior ao dos seus países (o dado mais recente é 75% das cidades C40, com uma queda média de 7,5% entre 2015 e 2024), demonstrando que a ação local pode acelerar significativamente a transição climática.
Investir localmente é investir na economia
O investimento climático local não produz apenas benefícios ambientais. Tem também impactos diretos na criação de emprego, inovação e competitividade territorial.
O Banco Mundial destaca que projetos de adaptação climática liderados localmente contribuem para a criação de emprego, proteção de meios de subsistência e reforço da resiliência económica das comunidades. Segundo a instituição, centenas de milhões de postos de trabalho poderão estar em risco nas próximas décadas devido aos impactos climáticos, tornando urgente o reforço dos investimentos em infraestruturas resilientes e soluções locais de adaptação.
Por outro lado, a capacidade de resposta aos riscos climáticos está a tornar-se um fator crescente de atração de investimento. Estudos recentes mostram que cidades que incorporam a resiliência climática no seu planeamento urbano tendem a ser mais competitivas, atraindo empresas, talento e financiamento.
O desafio do financiamento
Embora a necessidade de investimento seja amplamente reconhecida, o acesso ao financiamento continua a ser um dos principais obstáculos.
Uma análise recente sobre planos climáticos municipais europeus, publicada na revista ScienceDiret, identificou mais de 8.500 ações de mitigação, representando investimentos superiores a 100 mil milhões de euros. O estudo conclui que a maioria dos municípios continua excessivamente dependente de subsídios e financiamento público tradicional, enquanto instrumentos como obrigações verdes, parcerias público-privadas ou contratos de desempenho energético permanecem subutilizados. As dificuldades são particularmente evidentes nos municípios de pequena e média dimensão.
Ao mesmo tempo, dados internacionais mostram que a procura por financiamento climático urbano continua a crescer rapidamente. Em 2025, de acordo com dados do Global Covenant of Mayors, as cidades reportaram necessidades de investimento superiores a 105 mil milhões de dólares para projetos de adaptação e mitigação, um valor recorde que evidencia tanto a dimensão dos desafios como a maturidade crescente das soluções disponíveis.
Da ambição à implementação
A próxima década será decisiva para determinar se os objetivos climáticos globais serão alcançados. Nesse esforço, as cidades e os territórios desempenham um papel incontornável.
A experiência internacional demonstra que as soluções existem, os benefícios económicos são claros e os impactos positivos vão muito além da redução de emissões. O verdadeiro desafio passa agora por garantir que os recursos financeiros chegam aos territórios com a escala e a velocidade necessárias.
Estas questões estarão em debate na 2ª conferência internacional da Cidades pelo Clima, que reunirá no dia 2 de julho, em Lisboa, especialistas nacionais e internacionais para discutir como acelerar o investimento e a ação climática nos territórios.



