
A crise da habitação tornou-se um dos maiores desafios urbanos do século XXI. Cerca de 3,4 mil milhões de pessoas vivem atualmente sem acesso a uma habitação segura, adequada e acessível, enquanto o défice habitacional mundial continua a aumentar, pressionado pela rápida urbanização, pelas alterações climáticas, pelo aumento do preço dos terrenos e pela crescente financeirização do mercado imobiliário. O alerta é lançado no World Cities Report 2026: The Global Housing Crisis: Pathways to Action, publicado pela UN-Habitat.
Segundo o relatório, o défice global de habitação passou de 251 milhões de fogos em 2010 para 288 milhões em 2023, enquanto mais de mil milhões de pessoas vivem em bairros informais ou bairros de lata, frequentemente sem acesso adequado a serviços básicos, infraestruturas ou segurança na posse da habitação. A ONU estima ainda que cerca de 64 milhões de pessoas foram despejadas entre 2003 e 2023, agravando situações de vulnerabilidade social e económica.
Habitação no centro da ação climática
O relatório sublinha que a habitação deixou de ser apenas uma questão social para assumir um papel central nas políticas climáticas e de desenvolvimento urbano.
Até 2050, as cidades deverão receber mais dois mil milhões de novos habitantes, o que exigirá uma expansão significativa do parque habitacional. Ao mesmo tempo, as alterações climáticas representam uma ameaça crescente: a ONU estima que 167 milhões de habitações poderão ser danificadas ou destruídas por fenómenos climáticos até 2040, caso não sejam reforçadas as medidas de adaptação e resiliência.
Neste contexto, o relatório defende uma aposta em edifícios energeticamente eficientes, materiais de baixo carbono, infraestruturas resilientes e processos de regeneração urbana que integrem as comunidades locais.
Cinco desafios interligados
O World Cities Report 2026 identifica cinco dimensões que alimentam a atual crise habitacional:
- falta de acessibilidade económica;
- deslocações forçadas por conflitos e fenómenos climáticos;
- crescimento da informalidade urbana;
- insuficiente resiliência e sustentabilidade do edificado;
- perda de qualidade de vida nas cidades.
Para inverter esta tendência, a ONU propõe um novo contrato social para a habitação, baseado numa maior intervenção pública, numa melhor regulação do mercado, no reforço do investimento em habitação acessível e numa governação multinível que envolva governos nacionais, autoridades locais, setor privado e comunidades.
E Portugal?
O relatório da UN-Habitat não apresenta uma análise específica sobre Portugal nem indicadores nacionais individualizados. O país surge apenas integrado nas análises globais e europeias.
Contudo, as conclusões encontram paralelo com a realidade portuguesa. A Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD) tem alertado que Portugal enfrenta um dos maiores problemas de acessibilidade à habitação da Europa, resultado da combinação entre escassez de oferta, aumento dos preços da habitação e rendimentos insuficientes, recomendando um reforço da construção de habitação acessível, maior eficiência no licenciamento urbanístico e políticas de utilização mais eficiente do parque habitacional existente.
Um desafio para as políticas urbanas
O relatório conclui que responder à crise habitacional exige mais do que construir novas casas. É necessário integrar as políticas de habitação com o planeamento urbano, a mobilidade, a adaptação às alterações climáticas e a inclusão social.
Para a UN-Habitat, garantir uma habitação adequada é uma condição essencial para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e construir cidades mais resilientes, inclusivas e preparadas para enfrentar os desafios económicos, ambientais e sociais das próximas décadas.



