Novo roteiro europeu ajuda cidades e organizações a potenciar a ação cidadã nas Soluções Baseadas na Natureza 

Foi publicado o Roadmap for Citizen Action on Nature-based Solutions (NbS), um guia prático desenvolvido por Claudia Misteli e María Angélica Mejía, da The Nature of Cities Europe, no âmbito do projeto europeu NetworkNature+ (Horizonte 2020), coordenado pelo ICLEI European Secretariat. 

Um roteiro para dar escala à ação que já existe 

O documento parte de uma constatação central: a ação cidadã a favor da natureza já existe, em todo o mundo. Comunidades protegem ecossistemas, restauram paisagens, cultivam alimentos e cuidam de espaços verdes, muitas vezes sem apoio institucional, reconhecimento formal ou acesso a financiamento. As práticas não são, porém, habitualmente reconhecidas como “Soluções Baseadas na Natureza” (NbS): as pessoas falam em “restauração”, “espaço verde”, “soberania alimentar” ou “cuidado de bairro”, não em “NbS”, um termo frequentemente percecionado como abstrato, técnico e distante da linguagem do dia a dia das comunidades. 

Segundo o relatório, o principal desafio não está na motivação dos cidadãos, mas na ausência de condições facilitadoras: comunicação acessível, governação inclusiva e apoio institucional e financeiro sustentado. Os inquiridos identificam como principais barreiras estruturais o acesso limitado a financiamento de longo prazo (63%), ferramentas de comunicação insuficientes (56%) e ligações fracas com as autoridades locais (52%). 

 

Metodologia: três fontes de evidência 

O roteiro assenta numa base de evidência mista, combinando três fontes complementares: uma revisão documental sistemática de 31 relatórios de 16 projetos europeus financiados sobre NbS, um inquérito global a 445 respondentes de 43 países, e 20 entrevistas semiestruturadas a profissionais de África, Ásia, Américas e Europa. 

As quatro fases de adoção das NbS 

O relatório conceptualiza a adoção e integração das NbS como um processo com quatro fases críticas: 

 

  • Compreensão: as pessoas já agem em prol da natureza, mas as suas práticas não são enquadradas como NbS 
  • Reconhecimento: a ação cidadã ganha legitimidade, linguagem e visibilidade 
  • Integração: as NbS são incorporadas no planeamento, nas políticas e na governação, substituindo abordagens compartimentadas 
  • Uso sustentado: financiamento de longo prazo, modelos de gestão e propriedade garantem que as NbS perduram além dos ciclos de projeto e dos mandatos políticos 

Seis caminhos estratégicos para a ação 

A partir desta investigação, o relatório destila seis caminhos estratégicos (pathways) para impulsionar a ação cidadã nas NbS, cada um com um conjunto prático de verificação: 

  1. Falar a língua das comunidades: substituir o jargão técnico por linguagem localmente significativa, ligando os benefícios das NbS a preocupações do quotidiano (saúde, segurança, emprego, alimentação) 
  1. Aprender juntos, construir juntos:  criar espaços de coaprendizagem acessíveis e não institucionais, com componentes de ciência cidadã e aprendizagem entre pares 
  1. Ir ao encontro das pessoas: levar o envolvimento às comunidades em vez de esperar que venham até às instituições, usando métodos criativos e não verbais para ultrapassar barreiras 
  1. Partilhar poder, partilhar responsabilidade: mapear redes de gestão (formais e informais) já existentes, criar grupos de trabalho interdepartamentais e codificar a participação em lei ou política local 
  1. Defender financiamento descentralizado: substituir o financiamento episódico por microsubsídios sustentados 
  1. Promover empresas de base natural: criar modelos económicos que sustentem a gestão da natureza como meio de vida 

O relatório conclui com um apelo direto: um convite aos decisores políticos para reformar, às autarquias para abrirem os seus processos, às organizações da sociedade civil para fazerem a ponte, e a todos os atores para reconhecerem que o futuro das Soluções Baseadas na Natureza depende das pessoas que já fazem este trabalho no terreno.