
A expansão global das energias renováveis continua a acelerar, mas o ritmo de crescimento ainda não é suficiente para cumprir plenamente, até 2030, os objetivos definidos no UAE Consensus, alcançado na COP28.
Esta é uma das principais conclusões do relatório Delivering on the UAE Consensus: Tracking progress toward tripling renewable energy capacity and doubling energy efficiency by 2030, elaborado pela International Renewable Energy Agency (IRENA), pela Presidência da COP30 e pela Global Renewables Alliance.
582 GW de nova capacidade renovável num ano

Em 2024, foram adicionados 581,9 GW de capacidade renovável a nível mundial, o equivalente a um crescimento anual de 15,1%. Foi o terceiro ano consecutivo em que se registou um novo recorde de instalação de capacidade renovável.
Apesar deste progresso, o ritmo permanece abaixo do necessário para alcançar a meta de triplicar a capacidade renovável instalada até 2030. Para atingir 11,2 TW em 2030, será necessário adicionar, em média, 1 122 GW por ano entre 2025 e 2030, correspondendo a uma taxa média de crescimento anual de 16,6%.
Se o ritmo registado em 2024 se mantivesse durante o resto da década, a capacidade renovável global chegaria a cerca de 10,3 TW em 2030, ficando 0,9 TW, ou 7,7%, abaixo da meta. Ainda assim, o défice projetado melhorou face aos 1,49 TW estimados no relatório anterior.
Solar lidera o crescimento
A energia solar fotovoltaica continua a ser o principal motor da expansão das renováveis. Em 2024, foram adicionados 452,1 GW de capacidade solar fotovoltaica, mais 27% do que em 2023 e o maior aumento anual registado por uma tecnologia renovável. A energia eólica registou uma adição de 114,3 GW, dos quais 105,7 GW corresponderam a eólica onshore.
Segundo o cenário de 1,5 °C da IRENA, as adições de capacidade solar fotovoltaica estão, de forma geral, alinhadas com o necessário para 2030. O mesmo não acontece com outras tecnologias, cuja expansão continua aquém do ritmo necessário.
A eficiência energética continua a ser um desafio
A melhoria global da eficiência energética tem permanecido em torno de 1%, muito abaixo dos 4% anuais necessários entre 2022 e 2030 para cumprir o objetivo de duplicar a taxa média global de melhoria da eficiência energética. Este desfasamento significa que, entre 2025 e 2030, a melhoria anual necessária sobe para pelo menos 5%.
O desafio é particularmente relevante nos setores de utilização final, incluindo transportes, aquecimento, edifícios e indústria, onde será necessário acelerar a adoção de medidas de eficiência e eletrificação.
Investimento: uma condição essencial para acelerar
A concretização dos objetivos do UAE Consensus exige também um aumento significativo do investimento. Entre 2025 e 2030, serão necessários cerca de 29 a 30 biliões de dólares de investimento acumulado em energias renováveis, redes, flexibilidade do sistema, eficiência energética e conservação de energia, cerca de 5 biliões de dólares por ano.
Só o investimento anual médio em capacidade renovável terá de aumentar para aproximadamente 1,44 biliões de dólares por ano, 2,3 vezes mais do que os cerca de 0,6 biliões registados em 2024.
O relatório destaca ainda uma segunda dimensão deste desafio: garantir que uma maior parcela do financiamento chega aos países emergentes e economias em desenvolvimento, onde persistem maiores barreiras ao acesso a capital a custos comportáveis.
Mais capacidade exige também mais redes, armazenamento e planeamento
A expansão das renováveis não depende apenas da instalação de nova capacidade de produção. O relatório sublinha a necessidade de modernizar e expandir infraestruturas de rede, reforçar o armazenamento de energia, melhorar os mecanismos de financiamento e criar enquadramentos regulatórios e modelos de mercado capazes de acompanhar a transformação do sistema energético.
Os dados sobre os novos contributos nacionais para o Acordo de Paris mostram também que existe ainda margem para melhorar a articulação entre compromissos internacionais e políticas nacionais. Em outubro de 2025, apenas 56% das NDC ativas tinham as suas metas de energia renovável integradas num documento de política nacional.
Portugal entre os países com incentivos à agrivoltaica
O relatório identifica Portugal como um dos nove países que introduziram novos incentivos financeiros ou fiscais para tecnologias de transição energética entre o início de 2024 e agosto de 2025. Em 2024, Portugal, juntamente com a Itália e Marrocos, lançou regimes de subsídios dirigidos ao setor agrícola, apoiando especificamente a agrivoltaica e kits de bombagem solar, soluções que permitem a produção simultânea de alimentos e energia no mesmo terreno.
O desafio para 2030
O balanço apresentado pela IRENA mostra, assim, um cenário com duas dimensões.
Por um lado, a expansão das energias renováveis está a acelerar, com novos recordes de capacidade instalada e um crescimento particularmente forte da energia solar. Por outro, o ritmo atual ainda não é suficiente para cumprir integralmente os objetivos definidos para 2030, sobretudo no que diz respeito à capacidade renovável, à eficiência energética e ao financiamento da transição.
O relatório considera que os objetivos continuam ao alcance, mas identifica condições essenciais para fechar o défice: modernização das infraestruturas, expansão e reforço das redes, enquadramentos regulatórios robustos, cadeias de abastecimento resilientes, financiamento adequado e capacidade técnica e humana para concretizar a transição energética.
O progresso alcançado desde a adoção do UAE Consensus demonstra que a transformação do sistema energético está em curso. Os próximos anos serão determinantes para acelerar o ritmo e transformar o crescimento das renováveis numa trajetória compatível com os objetivos climáticos de longo prazo.



