35% da procura final de energia satisfeita por eletricidade até 2035: o que significa para as cidades?

A eletrificação é uma das prioridades da Agenda de Ação da Presidência da COP31. Em junho, a Presidência turca propôs aumentar de pouco mais de 20% atualmente para 35% em 2035 a parcela da procura final de energia satisfeita por eletricidade. A proposta pretende acelerar a substituição do consumo direto de combustíveis fósseis por soluções elétricas nos transportes, edifícios e indústria, integrando esta transformação numa estratégia mais ampla de transição energética.

A meta 35×35 é uma proposta da Presidência da COP31 e integra a sua Agenda de Ação, não constituindo, neste momento, um objetivo formalmente acordado no processo de negociação da COP. A Presidência está a trabalhar com a Agência Internacional de Energia (IEA) para analisar os caminhos necessários à sua concretização e os respetivos benefícios.

Uma transformação que passa pelas cidades

Embora a meta seja global, grande parte da eletrificação necessária terá expressão concreta nos territórios urbanos. É nas cidades que se concentram uma parte significativa dos consumos de energia associados à mobilidade, aos edifícios e às atividades económicas, tornando os municípios atores relevantes na concretização desta transformação.

Nos transportes, a eletrificação implica acelerar a adoção de veículos elétricos, mas também criar as condições físicas e energéticas para essa transição: redes de carregamento, reforço da infraestrutura elétrica e integração da mobilidade elétrica no planeamento urbano.

Nos edifícios, a eletrificação pode passar pela substituição de equipamentos alimentados diretamente por combustíveis fósseis por tecnologias elétricas mais eficientes, incluindo bombas de calor, bem como pela integração de produção solar e armazenamento. A própria Agenda de Ação da COP31 estabelece, em paralelo, uma meta para reduzir em pelo menos 25% a intensidade energética dos edifícios até 2035, associando eletrificação e eficiência energética à resiliência urbana.

Na indústria, sobretudo nos territórios onde se concentram atividades industriais, a eletrificação de processos poderá exigir novos níveis de capacidade de ligação à rede, reforço da infraestrutura e planeamento antecipado da procura.

Mais eletrificação exige mais rede

Aumentar a utilização de eletricidade não significa apenas substituir uma tecnologia por outra. Significa também garantir que existe eletricidade suficiente, disponível no local e no momento em que é necessária.

A análise publicada pela IEA em setembro de 2026 estima que, com as tecnologias atualmente disponíveis e preços de energia anteriores ao atual choque de oferta, a eletricidade poderia representar 33% do consumo final global de energia em 2035.Mas a aceleração da eletrificação implica igualmente expandir e modernizar as redes, aumentar a capacidade de armazenamento e melhorar a flexibilidade dos sistemas elétricos. A iniciativa internacional Electrify Now, lançada em junho de 2026, organiza precisamente o trabalho em três áreas interligadas: eletrificação dos setores de utilização final; redes, interligações e flexibilidade do sistema; e expansão da oferta de eletricidade limpa para responder à nova procura.

Para as cidades, isto traduz-se numa necessidade crescente de planeamento energético integrado. A localização de novos carregadores, bombas de calor, edifícios eletrificados ou instalações industriais não pode ser dissociada da capacidade da rede elétrica, da produção local de energia e das necessidades futuras de consumo.

Eletrificar não basta: é preciso eletrificar com energia limpa

O impacto climático da eletrificação dependerá também da origem da eletricidade utilizada.

A proposta da COP31 está inserida numa agenda mais ampla que inclui a expansão das energias renováveis, o reforço das redes e do armazenamento e a redução da dependência dos combustíveis fósseis. A própria Presidência reconhece que a eletrificação terá de ser acompanhada pelo aumento da geração renovável e de outras formas de eletricidade de baixo carbono, bem como pelo reforço das redes e do armazenamento.

Esta relação é particularmente relevante para os municípios. A eletrificação dos transportes ou dos edifícios pode aumentar significativamente a procura de eletricidade local. Sem capacidade adicional de produção limpa e sem infraestrutura adequada para transportar e gerir essa energia, a eletrificação poderá criar novos constrangimentos no sistema.

Por isso, a transição urbana terá de articular eletrificação, eficiência energética, produção renovável, armazenamento e gestão inteligente da procura.

O desafio do acesso e da acessibilidade

Existe ainda uma dimensão social. A eletrificação só poderá avançar de forma sustentada se a eletricidade for segura, acessível e economicamente comportável para famílias, empresas e serviços públicos.

A IEA identifica precisamente a segurança e a acessibilidade económica da eletricidade como condições importantes para acelerar esta transformação. No cenário analisado pela agência, uma eletrificação mais rápida poderia reduzir significativamente a utilização de petróleo e diminuir as faturas de importação de energia dos países dependentes de combustíveis fósseis.

Para as cidades, esta questão cruza-se com temas como pobreza energética, reabilitação dos edifícios, mobilidade acessível e capacidade de investimento dos municípios. A transição tecnológica terá, por isso, de ser acompanhada por políticas que evitem que os custos iniciais da eletrificação recaiam de forma desproporcionada sobre os agregados familiares mais vulneráveis.

Uma oportunidade para o planeamento urbano

A meta 35×35 pode também alterar a forma como as cidades planeiam a sua infraestrutura energética. A eletrificação deixa de ser apenas uma questão do setor da energia e passa a estar diretamente relacionada com urbanismo, mobilidade, habitação, indústria, gestão de edifícios públicos e desenvolvimento económico local.

Para os municípios, isto significa antecipar a evolução da procura e integrar as necessidades energéticas nas decisões de investimento. Significa também identificar onde a eletrificação pode gerar maiores benefícios, onde existem constrangimentos de rede e que investimentos são necessários para evitar que a infraestrutura energética se torne um obstáculo à transição.

A cooperação entre municípios, operadores de rede, empresas, instituições financeiras e entidades nacionais será igualmente importante para transformar objetivos globais em projetos concretos nos territórios.

Da meta global à implementação local

A proposta de elevar para 35% a parcela da procura final de energia satisfeita por eletricidade até 2035 coloca uma questão que será central na COP31: como transformar uma meta global de eletrificação em condições concretas para a sua implementação.

Para as cidades, a resposta passará por combinar eletrificação, eficiência, energias renováveis, redes, armazenamento, financiamento e planeamento integrado.

A COP31 deverá aprofundar este debate em novembro, num contexto em que a Presidência turca procura colocar a implementação no centro da ação climática e aproximar os compromissos internacionais de projetos concretos no terreno.