Alerta: o mundo vai produzir 3,86 mil milhões de toneladas de resíduos em 2050 

Em 2022, o mundo gerou 2,56 mil milhões de toneladas de resíduos sólidos municipais de acordo com a 3ª edição do relatório What a Waste 3.0 do World Bank Group. O número seria apenas um registo estatístico se não carregasse uma advertência preocupante: o relatório de 2018 projetava que esse volume apenas seria atingido em 2030. A realidade revelada agora ultrapassou a projeção oito anos antes. 

Se nada mudar, a trajetória é clara: 3,86 mil milhões de toneladas em 2050, um aumento de 50% face a 2022. O crescimento mais acelerado está projetado para a África Subsariana (+124%) e para o Sul da Ásia (+99%), regiões onde os sistemas de recolha são ainda profundamente deficitários e onde a pressão demográfica e urbana é mais intensa. 

O relatório cobre 217 países e economias e 262 cidades, tornando-se a referência global mais completa e atualizada sobre o estado da gestão de resíduos municipais no mundo. 

A desigualdade dos resíduos 

Um dos dados mais reveladores do relatório é a profunda assimetria entre países ricos e pobres, não apenas na quantidade de resíduos gerados, mas sobretudo na capacidade de os gerir adequadamente. 

Os países de rendimento elevado representam 16% da população mundial, mas geraram 29% dos resíduos globais em 2022, com a maior geração per capita. No outro extremo, os países de baixo rendimento (9% da população) produziram apenas 4% dos resíduos, mas são os que enfrentam maiores dificuldades: apenas 28% dos resíduos são recolhidos, e somente 3% são tratados em instalações controladas. A grande maioria acaba em lixeiras a céu aberto ou simplesmente não é recolhida. 

Globalmente, 30% de todos os resíduos gerados são ainda depositados de forma não controlada ou permanecem por recolher. Este número — que representa centenas de milhões de toneladas — traduz-se em poluição de rios e oceanos, emissões de metano para a atmosfera, riscos de saúde pública e degradação da qualidade de vida nas cidades. 

Plásticos: o problema dentro do problema 

O relatório dedica atenção particular aos resíduos de plástico, que representam 12,5% de todos os resíduos municipais gerados globalmente. O dado mais perturbador: 29% de todo o plástico — cerca de 93 milhões de toneladas por ano — é mal gerido, seja em lixeiras não controladas (13%) ou simplesmente não recolhido (16%). 

Os países de rendimento médio são a principal fonte de plástico não gerido a nível mundial, responsáveis por 87% do total global. As regiões com maiores volumes de plástico mal gerido são a África Subsariana, o Sul da Ásia e o Leste da Ásia e Pacífico, com 15, 14 e 12 milhões de toneladas, respetivamente. 

Os plásticos de uso único representam 65% de todo o plástico presente nos resíduos municipais globais, um sinal inequívoco de que as políticas de redução na fonte continuam a ser insuficientes ou a não estar implementadas na maioria dos países. 

Três cenários para 2050  

Uma das novidades centrais desta edição é a construção de três cenários prospetivos até 2050, que permitem comparar o impacto de diferentes níveis de ambição política e investimento: 

Indicador Business-as-usual Baixa ambição Alta ambição 
Resíduos em 2050 3,86 mil milhões t 3,12 mil milhões t ≈ 2,56 mil milhões t 
Custo anual estimado (2050) US$ 426 mil milhões Inferior ao BAU Inferior ao BAU 
Emissões GEE (2050) Crescimento -1,33 Gt CO₂e -0,91 Gt CO₂e 
Deposição em aterro/lixeira Dominante Redução moderada Redução acentuada 

Fonte: What a Waste 3.0, World Bank Group, 2026. BAU = business-as-usual (tendência atual). GEE = gases com efeito de estufa. Gt CO₂e = gigaton de dióxido de carbono equivalente. 

O cenário de alta ambição é o único capaz de estabilizar a geração de resíduos nos níveis atuais, apesar do crescimento económico e demográfico esperado. Para o conseguir, seria necessário combinar prevenção de resíduos, reutilização, reciclagem e compostagem a uma escala muito superior à atual. O resultado, para além dos benefícios climáticos, seria também uma redução dos custos totais do sistema face ao cenário tendencial, porque menos resíduos custam menos a gerir. 

Resíduos e clima: uma ligação subestimada 

O setor dos resíduos é frequentemente esquecido nas discussões sobre clima, mas o relatório demonstra que esta omissão tem custos reais. A decomposição de matéria orgânica em aterros e lixeiras gera metano, um gás com efeito de estufa com poder de aquecimento muito superior ao dióxido de carbono no curto prazo. A queima a céu aberto de resíduos — ainda comum em muitos países de baixo rendimento — acrescenta emissões de CO₂ e poluentes atmosféricos. 

O relatório regista que 74% dos países já incluem o setor dos resíduos nas suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) sob o Acordo de Paris (link), um avanço significativo. No entanto, a maioria das medidas comprometidas depende de financiamento internacional externo para ser implementada, o que levanta sérias dúvidas sobre a sua concretização efetiva. 

Nos cenários de baixa e alta ambição, as emissões globais do setor dos resíduos poderiam cair para 1,33 e 0,91 mil milhões de toneladas de CO₂ equivalente em 2050, respetivamente, uma diferença significativa face ao cenário tendencial, onde as emissões continuam a crescer. 

O custo de não agir  

A gestão global de resíduos já custa mais de 230 mil milhões de euros por ano (mais de US$ 250 mil milhões). No cenário tendencial, esse valor poderá atingir cerca de 363 mil milhões de euros em 2050 (US$ 426 mil milhões). Os sistemas mais básicos em países de baixo rendimento custam pelo menos 34–38 euros por tonelada (US$ 40–45); os sistemas avançados com reciclagem e desvio de aterro ultrapassam os 102 euros por tonelada (US$ 120). 

O setor absorve em média 6% dos orçamentos municipais. Nos países de rendimento mais baixo, essa percentagem é ainda mais elevada e mesmo assim não chega para garantir cobertura universal. O relatório estima que os países de rendimento médio precisariam de investir 0,3% do PIB para sistemas básicos universais, chegando a 0,5% para sistemas mais avançados. Nos países de baixo rendimento, o valor pode atingir 0,8% do PIB, muito acima dos atuais 0,15% que a maioria dos países de rendimento médio e baixo efetivamente gasta. 

Entre 2003 e 2021, o financiamento oficial ao desenvolvimento para o setor totalizou apenas cerca de 12,3 mil milhões de euros (US$ 14,5 mil milhões), uma fração do necessário para cobrir as lacunas nos países mais vulneráveis. 

O que isto significa para as cidades portuguesas 

Portugal e as cidades europeias encontram-se numa posição privilegiada neste panorama global: sistemas de recolha próximos da universalidade, infraestrutura de tratamento estabelecida e enquadramento regulatório europeu ambicioso. Mas o relatório do Banco Mundial oferece uma perspetiva que vai além das fronteiras  e que é relevante para qualquer cidade com planos de ação climática. 

A economia circular não começa no contentor de reciclagem. Começa nas decisões de compra, nas políticas de produto, na redução na fonte e na conceção de sistemas urbanos que minimizem a geração de resíduos. Para os municípios que integram iniciativas como a Cidades pelo Clima, o relatório reforça uma mensagem central: a gestão de resíduos não é apenas um serviço de limpeza urbana, mas sim uma peça essencial da transição climática e da resiliência das cidades. 

O setor emprega globalmente cerca de 18 milhões de trabalhadores urbanos, ou seja, 0,3% da população urbana mundial. Com as políticas certas, pode criar muitos mais, sobretudo nas economias de reciclagem, reparação e valorização de materiais. Transformar resíduos em recursos é desta forma uma oportunidade económica concreta.