Municípios aceleram ação climática, mas atraso nos planos continua a marcar o território 

A ação climática local em Portugal está a ganhar tração, mas continua aquém das metas legais e da urgência imposta pela crise climática. Esta é uma das principais conclusões da 4ª edição do Mapa de Ação Climática Municipal, desenvolvido pela Get2C, que analisa o desempenho dos 308 municípios portugueses em áreas-chave como adaptação, energia e neutralidade climática. 

O retrato é misto: há progressos evidentes, mas também lacunas estruturais que podem comprometer a eficácia da resposta local. 

Um país mais ativo, mas ainda desigual 

Os dados mostram uma evolução positiva nos últimos anos. Em 2025: 

  • 100% dos municípios têm estratégias de adaptação às alterações climáticas 
  • 70% já contam com estratégias de energia 
  • 65% possuem Planos Municipais de Ação Climática (PMAC) 
  • Apenas 37% assumiram compromisso de neutralidade climática 
  • E só 17% têm roteiros concretos até 2050 

Apesar do progresso, a leitura mais crítica está no detalhe: mais de um terço dos municípios ainda não cumpre uma das principais obrigações legais: a elaboração do PMAC, exigida pela Lei de Bases do Clima até fevereiro de 2024. 

Os planos existem, mas nem sempre funcionam 

A universalidade das estratégias de adaptação pode dar uma sensação enganadora de robustez. 

Na prática, de acordo com este relatório, muitos destes documentos: 

  • foram desenvolvidos à escala intermunicipal 
  • carecem de detalhe local 
  • não estão integrados com instrumentos de planeamento e orçamento 
  • ou estão desatualizados (alguns com mais de 10 anos) 

Ou seja, existem no papel, mas nem sempre na execução. 

Energia ganha terreno nas políticas locais 

Uma das tendências mais marcantes é o crescimento das estratégias ligadas à energia. 

Atualmente, 217 municípios (70%) já dispõem de instrumentos nesta área, impulsionados sobretudo pela integração destas medidas nos próprios PMAC. 

Ainda assim, o relatório sublinha que poucos municípios desenvolvem estratégias autónomas para o setor energético o que pode limitar a profundidade e especialização das políticas. 

Neutralidade climática ainda longe da maioria 

Apesar de ser o objetivo central das políticas climáticas europeias, a neutralidade climática ainda está longe de ser uma prioridade consolidada ao nível local. 

Apenas: 

  • 37% dos municípios assumiram compromisso formal 
  • 17% têm roteiros estruturados até 2050 

Este desfasamento levanta dúvidas sobre a capacidade de alinhar a ação local com as metas nacionais e europeias. 

 Um país a duas velocidades 

O relatório evidencia também fortes assimetrias territoriais. 

  • Grande Lisboa e Península de Setúbal lideram consistentemente 
  • Alentejo e Madeira apresentam os níveis mais baixos de implementação 
  • Norte e Centro concentram a maioria dos municípios mais avançados 

Este padrão repete-se em praticamente todos os indicadores — desde planos climáticos até compromissos de neutralidade. 

Emissões concentram-se no litoral 

A análise da intensidade carbónica confirma outro padrão conhecido: 

  • municípios do interior → baixa intensidade de emissões 
  • municípios do litoral e industriais → valores muito elevados 

Cerca de 39% dos municípios têm intensidade residual, enquanto 13% registam níveis muito elevados, concentrados sobretudo nas áreas metropolitanas 

O mesmo fenómeno, ainda que menos acentuado, verifica-se nas emissões por habitante. 

O verdadeiro desafio: passar do plano à ação 

Para além dos números, o relatório deixa um alerta claro: o problema não é apenas falta de instrumentos — é a sua eficácia. 

Persistem desafios estruturais: 

  • falta de monitorização e atualização dos planos 
  • fraca ligação a orçamentos municipais 
  • ausência de integração com políticas territoriais 
  • desigualdade na qualidade dos documentos 

Sem resolver estas falhas, o risco é transformar a ação climática num exercício formal, sem impacto real. 

Cidades no centro da transição 

Num contexto em que os municípios são responsáveis por uma parte significativa da implementação das políticas climáticas, o papel das cidades torna-se decisivo. A verdade é que, como demonstra o relatório, a ação climática local está a evoluir, mas ainda não à velocidade necessária. 

Para cumprir as metas de neutralidade climática e responder aos impactos crescentes das alterações climáticas, será necessário acelerar a implementação, reforçar capacidades técnicas, garantir financiamento adequado e transformar planos em ação concreta.