
As alterações climáticas estão a acelerar a perda de biodiversidade a uma escala sem precedentes e podem conduzir à extinção de cerca de 7,9% das espécies a nível global, segundo o mais recente relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O estudo alerta ainda para um fenómeno particularmente preocupante: a degradação da natureza está, por sua vez, a agravar as alterações climáticas, criando um ciclo de retroalimentação difícil de travar.
No relatório Environmental Outlook on the Triple Planetary Crisis, a OCDE analisa a ligação entre as três grandes crises ambientais da atualidade (alterações climáticas, perda de biodiversidade e poluição) concluindo que estas não podem ser tratadas de forma isolada.
A biodiversidade já está sob forte pressão. De acordo com os dados compilados pela organização, a distribuição geográfica de mamíferos, aves e anfíbios diminuiu, em média, 18% ao longo dos últimos séculos, tendência que poderá acelerar à medida que as temperaturas globais continuam a aumentar.
A resposta de muitas espécies passa pela migração para latitudes mais elevadas, maiores altitudes ou águas mais profundas. Segundo o relatório, as espécies têm deslocado os seus habitats a um ritmo médio de 11 metros de altitude por década e 16,9 quilómetros em direção aos polos por década. No entanto, nem todas conseguem acompanhar a velocidade das alterações climáticas.
Eventos extremos aumentam risco de colapso ecológico
A OCDE destaca ainda o impacto crescente dos fenómenos meteorológicos extremos. Uma revisão de mais de 500 estudos científicos identificou mais de 100 casos em que eventos extremos provocaram reduções populacionais superiores a 25% e 31 casos de extinção local de espécies.
Ondas de calor marinhas, secas prolongadas, cheias e tempestades intensas estão a comprometer a capacidade de recuperação dos ecossistemas, com consequências para a produtividade agrícola, os recursos pesqueiros e a segurança alimentar.
Os oceanos merecem especial preocupação. O relatório refere que as alterações climáticas já representam o segundo maior fator direto de perda de biodiversidade marinha, apenas atrás da exploração excessiva dos recursos. O aquecimento das águas e a acidificação dos oceanos ameaçam espécies fundamentais para o funcionamento das cadeias alimentares marinhas.
Natureza perde capacidade de travar o aquecimento global
A destruição dos ecossistemas não representa apenas uma perda de espécies. Significa também uma redução da capacidade natural do planeta para absorver carbono.
Entre 2010 e 2019, os ecossistemas terrestres e marinhos absorveram mais de metade das emissões antropogénicas de dióxido de carbono, funcionando como um importante amortecedor da crise climática. Contudo, a degradação da biodiversidade está a enfraquecer esta função.
O relatório aponta para sinais preocupantes em várias regiões do mundo. Partes da Amazónia, por exemplo, já estão a emitir mais carbono do que conseguem absorver devido à desflorestação e à degradação florestal. A floresta amazónica perdeu cerca de 17% da sua cobertura, sendo uma parte significativa dessa área convertida para usos agrícolas.
Também as zonas húmidas enfrentam uma situação crítica. Apesar de ocuparem apenas 6% da superfície terrestre, armazenam entre 20% e 30% do carbono presente nos solos globais. Ainda assim, cerca de 35% das zonas húmidas mundiais desapareceram desde 1970, comprometendo simultaneamente a biodiversidade e a capacidade de sequestro de carbono.
Três crises, uma resposta integrada
Para a OCDE, a principal conclusão é que as crises climática, da biodiversidade e da poluição estão profundamente interligadas. A resposta exige políticas que integrem conservação da natureza, descarbonização da economia e redução da poluição, em vez de abordagens setoriais isoladas.
À medida que os impactos das alterações climáticas se tornam mais visíveis, o relatório reforça a importância de investir na restauração de ecossistemas, proteção de florestas, recuperação de zonas húmidas e soluções baseadas na natureza. Sem estes ativos naturais, alerta a OCDE, será significativamente mais difícil atingir os objetivos climáticos globais e construir sociedades resilientes às crises ambientais do século XXI.



