
Terceira Avaliação Mundial dos Oceanos conclui que as pressões humanas e as alterações climáticas estão a agravar a degradação dos ecossistemas marinhos e reforça o papel da ciência na definição de políticas públicas
O oceano continua a desempenhar um papel insubstituível na regulação do clima, na produção de oxigénio, na preservação da biodiversidade e no sustento de milhões de pessoas em todo o mundo. No entanto, a sua saúde encontra-se sob uma pressão crescente e vários ecossistemas marinhos aproximam-se de pontos críticos de degradação, segundo a terceira edição do World Ocean Assessment (WOA3), apresentada pelas Nações Unidas.
O relatório, considerado a mais abrangente avaliação global sobre o estado do oceano, traça um retrato preocupante da situação atual. Cinco anos após a segunda avaliação mundial, os especialistas concluem que as ameaças identificadas anteriormente não só persistem como se intensificaram, impulsionadas pelas alterações climáticas, pela poluição, pela sobrepesca e pela perda acelerada de biodiversidade. Um dado preocupante: a taxa de subida do nível do mar mais do que duplicou, passando de menos de 2 mm por ano antes de 2015 para 4,3 mm em 2023.
Na introdução do documento, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, sublinha que a ciência oceânica é hoje indispensável para encontrar soluções eficazes e coordenadas. “O oceano é a base da vida na Terra, mas a sua saúde encontra-se em grave risco, à medida que ecossistemas e habitats se aproximam ou ultrapassam pontos críticos de não retorno”, alerta.
O maior sistema de suporte à vida do planeta
Cobrindo mais de 70% da superfície terrestre, o oceano constitui o maior ecossistema do planeta e alberga a maioria da biodiversidade existente. Além de fornecer alimento e meios de subsistência a milhares de milhões de pessoas, desempenha um papel essencial nos ciclos globais do carbono e do azoto e contribui significativamente para a produção de oxigénio.
O relatório reforça que a estabilidade climática global continua profundamente dependente da capacidade do oceano para absorver calor e dióxido de carbono. Contudo, esse papel tem custos crescentes. O aquecimento das águas, a acidificação dos oceanos e a perda de oxigénio estão a alterar ecossistemas inteiros e a comprometer a resiliência de espécies e habitats.
Alterações climáticas agravam pressões existentes
Entre as conclusões mais relevantes da avaliação está a confirmação de que os impactos das alterações climáticas se tornaram mais visíveis e intensos entre 2018 e 2023.
O aumento da temperatura média dos oceanos, a maior frequência de ondas de calor marinhas, o degelo acelerado e a subida do nível do mar estão a provocar alterações profundas nos ecossistemas costeiros e oceânicos. Paralelamente, a degradação dos recifes de coral, dos mangais e das pradarias marinhas reduz a capacidade natural dos oceanos para armazenar carbono e proteger comunidades costeiras contra fenómenos extremos.
Os autores alertam que muitos destes sistemas desempenham funções críticas para a adaptação climática e que a sua perda terá consequências económicas, sociais e ambientais de longo prazo.
Biodiversidade continua sob ameaça
A perda de biodiversidade marinha permanece uma das maiores preocupações identificadas pelo relatório. A combinação de destruição de habitats, poluição, espécies invasoras e exploração excessiva dos recursos está a alterar a composição dos ecossistemas em várias regiões do planeta.
Embora existam exemplos de recuperação local em áreas protegidas e zonas sujeitas a gestão sustentável, a tendência global continua a apontar para uma diminuição da abundância e diversidade de espécies marinhas.
Os especialistas defendem que a expansão e o reforço da eficácia das áreas marinhas protegidas serão determinantes para inverter esta trajetória.
Governação dos oceanos ganha relevância estratégica
Pela primeira vez, a Avaliação Mundial dos Oceanos dedica uma secção específica à governação oceânica. O documento destaca a crescente complexidade das instituições, acordos e mecanismos internacionais responsáveis pela gestão dos mares e oceanos.
Um dos marcos mais relevantes identificados é a entrada em vigor, em janeiro de 2026, do Acordo sobre a Conservação e Utilização Sustentável da Biodiversidade Marinha em Áreas Além da Jurisdição Nacional, considerado um passo histórico para a proteção da biodiversidade em alto-mar.
Segundo os autores, o desafio passa agora por transformar compromissos políticos em ações concretas, garantindo uma coordenação eficaz entre governos, organizações internacionais, setor privado e comunidade científica.
Economia azul e bem-estar humano estão interligados
A avaliação reforça igualmente a importância de compreender o oceano como um sistema socioecológico, onde natureza e sociedade estão profundamente ligadas.
Setores como as pescas, o transporte marítimo, o turismo, a energia renovável offshore e a aquacultura dependem diretamente da saúde dos ecossistemas marinhos. Por sua vez, as atividades humanas exercem uma influência crescente sobre o estado do oceano.
O relatório destaca que uma economia azul sustentável exige equilíbrio entre desenvolvimento económico, conservação ambiental e inclusão social. A degradação dos ecossistemas marinhos representa riscos para a segurança alimentar, os empregos, a saúde pública e a estabilidade económica de inúmeras comunidades costeiras.
Ciência e cooperação internacional como caminho
Divulgada a meio da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021-2030), a terceira Avaliação Mundial dos Oceanos surge como um importante instrumento para orientar decisões políticas baseadas em evidência científica.
A principal mensagem do relatório é clara: o conhecimento sobre o oceano nunca foi tão vasto, mas a janela de oportunidade para agir está a diminuir rapidamente. A proteção dos oceanos deixou de ser apenas uma questão ambiental e tornou-se uma prioridade estratégica para o clima, a economia e o desenvolvimento sustentável global.
Para as Nações Unidas, o futuro do oceano dependerá da capacidade dos países em reforçar a cooperação internacional, acelerar a implementação de medidas de proteção e colocar a ciência no centro das decisões. Sem essa mudança, os custos ecológicos, sociais e económicos poderão tornar-se irreversíveis.



